quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

bauru, mico leão de cara dourada & diabética

está na edição de janeiro da revista piauí minha sexta contribuição pra seção 'esquinas'. é sobre o tratamento de um mico leão diabético no zoológico de são paulo. essa pauta surgiu de uma conversa com uma amiga querida, bia abramo, que ficou sabendo de uma farmácia de manipulação na rua líbero badaró, centro da cidade, que fornecia medicamentos pro zoo. dores crônicas, antidepressivos, reposições de cálcio, problemas tão humanos, tão animais.

em tempo, minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'], um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado] e uma flanelinha cinéfila ['a rosa púrpura da fradique'].

segue então uma versão maior do texto, pré-edição do bernardo esteves.

METFORMINA OU MORTE

A luta de um mico-leão diabético por sua independência metabólica


ilustração de Andrés Sandoval

Bauru estava diferente. Parecia eletricamente irritado com qualquer coisa, mas, sobretudo, com quem ousava se aproximar de sua comida. Chegou a brigar, sair na mão de verdade. E sempre com muita fome, muita mesmo, mais que o normal. Muita sede também e, por consequência, uma quantidade assombrosa de xixi. Bauru não era assim.

Então alguns pelos começaram a cair e com a pele mais exposta surgiram feridas que, por sua vez, demoravam a cicatrizar. Definitivamente era muita coisa estranha acontecendo ao mesmo tempo e, em fevereiro de 2016, Bauru deu entrada na creche do Zoológico de São Paulo, lugar que serve tanto para cuidar de filhotes abandonados pelas mães quanto para tratar de algumas enfermidades em espécies menores, como é o caso de Bauru, um dos 51 micos-leões-de-cara-dourada da instituição. 

“Logo depois que ele chegou aqui conseguimos rapidamente diagnosticar a diabetes pela dosagem da glicose sanguínea e também pelos sinais clínicos, porque ele estava com polidipsia [bebendo muita água], polifagia [comendo muito e vorazmente] e poliuria [muito xixi]”, explicou Suzana Hirata, veterinária que tem acompanhado o animal, enquanto caminha pelo corredor do seu principal local de trabalho. A edificação térrea fica entre a creche e a diretoria da Fundação que administra a vida de pouco mais de 3000 animais [eram 400 quando o zoo foi inaugurado em 1958, ao redor das nascentes do Riacho do Ipiranga, pelo então governador Jânio Quadros]. 

É nesse lugar cercado pela Mata Atlântica que cobre os 824.529 m² do zoológico – e que tem centro cirúrgico, sala de incubação para ovos de aves e répteis e almoxarifado, entre outros – que a veterinária e seus colegas preparam os remédios que serão administrados pelos tratadores nas mais diversas formas para as mais diversas espécies. Todo santo dia, várias vezes ao dia.



Agora é a vez de Bauru. Hirata pega um pouco de ração, mistura com banana amassada, acrescenta 3 gotas de metformina, um antidiabético também usado por humanos, e faz um bolinho. Esse é o tratamento diário para a diabetes do mico prestes a completar 17 anos [2 anos a mais que a média esperada para a espécie]. No entanto, o problema de saúde de Bauru é um pouco mais complexo. 

“A doença base não está diagnosticada ainda e ela é a causadora da diabetes que, no caso, é uma doença secundária. É sempre um desafio fechar diagnósticos em animais selvagens porque a gente não tem parâmetros de laboratório. Não temos referências de normalidades para todas as espécies, então trabalhamos com dosagens por alometria, que são fórmulas baseadas em metabolismos como o do cão, e vamos adequando conforme a espécie”, diz Hirata, enquanto prepara mais um bolinho.

Na parede ao lado é possível ver um painel com a organização de todos os tratamentos, dosagens, horários e seus respectivos “pacientes”. Tem, por exemplo, homeopatia e acupuntura para um urso-pardo idoso que sofre de osteoartrose, e só acupuntura para uma cobra-cipó que está passando por um processo degenerativo ósseo, ou então suplementos alimentares para animais como o leão-marinho e os pelicanos, pois eles comem peixes que chegam congelados ao zoo e que, nesse processo, perdem nutrientes.



Caminhando rumo à creche, já com os bolinhos batizados com metformina em mãos, Hirata fala mais sobre a doença base de Bauru: “A gente acha que pode ser hiperadrenocorticismo porque tem isso da alopecia [queda de pelos] e a diabetes pode ser secundária a ela. Em humanos essa doença está muito associada a tratamentos prolongados com corticoides. Em primatas não humanos não existem trabalhos publicados e, no caso dele, certamente não foi por causa de corticoides. Ainda não sabemos como isso aconteceu com ele. Mudamos dosagens, alteramos dieta, nada de frutas ou legumes, e esperamos ter alguma resposta nos próximos meses”.

Só que Bauru terá que esperar mais um pouco pelo bolinho porque o portão da creche está fechado e Hirata precisa voltar ao escritório para pegar a chave. Enquanto isso, é bom esclarecer para fins biográficos que, segundo sua ficha, Bauru não nasceu em Bauru. Sua procedência é o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, sua data de nascimento é 15 de dezembro de 2000, e o pequeno primata chegou ao micário do Zoológico de São Paulo em 14 de fevereiro de 2008 “para compor o plantel e integrar as ações de conservação da espécie”.

Mesmo com os portões fechados é possível ver, pelo lado de fora, grande parte dos cerca de 70 m² da creche. Habitado majoritariamente por pequenos primatas e aves, o espaço ao ar livre possui uma série de ambientes com casinhas, troncos, cordas, chão de cimento, teto e, quando necessário, aquecimento. Mas cada um no seu gradeado. “O caso do Bauru é difícil, mas ele melhorou com o tratamento para controlar a glicemia. Melhoraram os sinais clínicos e o comportamento. Mas é como acontece com as pessoas, pois melhorar a glicemia não significa, necessariamente, voltar pra normalidade”.



Nem é preciso quatro passos dentro da creche para ouvir – “Esse é o Bauru” – e ver sua cara dourada grudada na grade. Ágil, ansioso e com uma juba vistosa, Bauru parece bem, mas tão logo se vira para voltar à casinha, o dorso se revela ainda sem pelos e com algumas feridas. “O Bauru é um animal idoso, o que dificulta o tratamento e uma eventual cura. Nem tudo se resolve, nem tudo a gente consegue tratar. Nem a medicina humana consegue, né? Às vezes dá uma certa frustração, mas a gente continua mesmo assim. A ideia é que ele se sinta bem, com qualidade de vida, sem dor, sem mal estar”, e Bauru sai da casinha novamente, dessa vez acompanhado por Cláudia.

Parceira de Bauru em seu retiro, Cláudia é fruto do programa de conservação do Zoológico de São Paulo, nasceu na instituição em 21 de janeiro de 2009 e tem uma saúde de ferro. “Estar acompanhado é uma decisão de bem estar. Micos leões são animais gregários, então o ideal é que sempre tenha pelo menos uma companheira ou companheiro”, e Cláudia, a mica, foi a escolhida. 

Enquanto o casal de micos se agita na expectativa por comida, Hirata coloca suas luvas, pega dois bolinhos – o batizado com metformina para um lado, o de Cláudia para o outro –, tira pequenos pedaços e os oferece. “Bauru já era de um grupo de micos que fazem parte do programa de conservação, então já não estava em exposição para o público do zoológico. Pra ele tanto faz estar aqui na creche, ou no micário. Pra gente, o que importa é ele estar bem”.

Bauru é o primeiro a acabar seu bolinho e quando chega a vez de Cláudia dar a última mordiscada, ele pula à frente, pega o pedaço e sai correndo. Hirata, a veterinária, balança a cabeça e diz entredentes, “Ai, Bauru”. 

p.s.: abaixo seguem os discos que fizeram a trilha da produção desse texto.

Brooklyn Raga Massive - Terry Riley in C 
Trent Reznor & Atticus Ross - The Vietnam War [Original Score] 
Sébastien Tellier - A Girl Is a Gun [Music from the Original Series]
Incredible Bongo Band - The Return of the Incredible Bongo Band 
Nicole Willis & UMO Jazz Orchestra - My Name Is Nicole Willis
Ghostpoet - Dark Days and Canapes
Hermeto Pascoal & Big Band - Natureza Universal

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

80 músicas brasileiras de 2017

a lista de discos nacionais já deu a pista de uma boa parte das melhores músicas de 2017 e, como sempre, foi muito difícil escolher apenas uma de discos poderosos como, por exemplo, o da aláfia, alzira e, as bahias e a cozinha mineira, àttøøxxá, baco exu do blues, curumin, don l, flora matos, letrux, momo, nill, oquadro, otto, paulo miklos, rincon sapiência, rodrigo ogi, trupe chá de boldo, vitor ramil e xênia. ou então de discos que ficaram na lista b como os de davi moraes, coletivo rua, johnny hooker, juliana kehl, seu pereira & coletivo 401 e tiê [e acabei escolhendo o belo dueto da cantora com ninguém menos que luan santana].

no entanto um pouco mais de um terço dessa lista de músicas é de singles ou prévias de discos que chegarão em 2018. neste segundo caso aparecem anelis assumpção ["receita rápida" é uma bela raridade pouco (re)gravada do pai itamar], a rapper lay e seu witch trap, o rapper rashid [da sua série em construção] e o lindo encontro familiar ao vivo de zeca, caetano, moreno e tom veloso.

mas são os singles que dominam. do rap vieram parteum e suas rimas e bases sempre instigantes, o emicida com a brasileiríssima "yasuke" [que o paulistano fez pro mais recente desfile de sua marca na são paulo fashion week], mais uma pedrada do grande black alien [que tá numa fase incrível], a inquietude do carioca xamã e as minas ju dorotea [uma das preferidas da casa dessa nova geração] e a sempre divertida karol conká [mais pop e certeira que nunca, tanto que a música ganhou versão jingle].

tem também o encontro inédito e adubado dos pernambucanos do café preto com a cantora céu, uma nova e poderosa do baiana system, uma instrumental envolvente do produtor carioca omulu, mais uma rasteirinha delícia da mc tha [com produção de omulu e king doudou], um pancadão violento do heavy baile com participações de tati quebra barraco e lia clark, pérolas pop do dream team do passinho, de iza, de valesca popozuda, mc beijinho e da banda uó, e a galhofa dos brasilienses do harmonia do sampler ["pau, perereca e cu"].

e vale um bloco inteiro pro funk de são paulo, que anda numa fase ótima e cada vez mais variada. tem hits do verão passado como "deu onda" [mc g15], "olha a explosão" [mc kevinho] e "bum bum tam tam" [mc fioti], o sempre surpreendente mc neguinho do kaxeta ["proliferação dos loucos"], o galã malandro mc livinho ["azul piscina"] e os azarões mc kekel ["quem mandou tu terminar?"], mc nando dk, jerry smith e dj cassula ["troféu do ano"].

anitta e pabblo, pabblo e anitta – claro que estão presentes na lista as duas grandes figuras do pop brasileiro do ano. de um lado, a maranhense pabblo vittar, que emplacou vários hits de seu disco de estreia [vai passar mal] desde os primeiros dias de 2017. nada mais brasileiro que fazer uma grande mistura dos gêneros mais populares do momento, do funk eletrônico ao arrocha, do forró ao brega, do sertanejo ao reggae, do trap a balada, e pabblo faz tudo isso com a desenvoltura de quem não tem medo de nada. pena que não pude colocar aqui a minha preferida – "todo dia", dueto de pabblo com rico dalasam – por motivos de briga por direitos entre dalasam e os produtores do disco, dj gorky e maffalda. na treta, que ainda não se resolveu, a música foi retirada das plataformas de streaming.

vai anitta

do outro lado, a incontornável, meticulosa, global e ultrapop anitta, que teve um ano sensacional com direito a hits no mundo sertanejo ao lado de simone & simaria ["loka"], no mundo televisivo radiofônico com nego do borel e wesley safadão ["você partiu meu coração"] e ainda fechou 2017 com uma feroz volta ao funk em "vai malandra". poderia ter colocado também outras três músicas de sua invasão global - "paradinha", "downtown" e "sua cara" [encontro com pabblo vittar sob a batuta de major lazer] -, mas é preciso colocar limites.

então, sobe o som.


Aláfia - "Liga nas de 100"
Alzira E - "Cheguei"
Anelis Assumpção - "Receita rápida"
Anitta - "Vai malandra" [part. MC Zaac, Maejor, Tropkillaz e DJ Yuri Martins]
As Bahias e a Cozinha Mineira - "Um doido caso"
ÀTTØØXXÁ - "Elas gostam" [part. OZ]
Baco Exu do Blues - "Te amo disgraça" [part. Ellen Andrade]
Baiana System - "Invisível"
Banda Uó - "Sauna"
Bárbara Eugênia & Tatá Aeroplano - "Pro mundo virar shopping"
Black Alien - "Sangue de free"
Boogarins - "Foi mal"
Café Preto & Céu - "Água, fogo, terramar"
Chico Buarque - "As caravanas"
Coletivo Rua - "Grana"[part. Lurdez da Luz]
Coruja BC1 - "NDDN"
Criolo - "Lá vem você"
Curumin - "Boca de groselha"
Davi Moraes - "Guitarra da liberdade"
Diego Moraes - "Muderno"
Djonga - "Corre das notas"
Don L - "Laje das ilusões" [part. Leo Justi]
Dream Team do Passinho - "Oi sumido"
Felipe S - "Santo forte"
Flora Matos - "Perdendo o juízo"
Froid - "Sk8 do Matheus"
Harmonia do Sampler - "Pau, perereca e cu"
Heavy Baile - "Berro" [part. Tati Quebra Barraco e Lia Clark]
Johnny Hooker - "Corpo fechado" [part. Gaby Amarantos]
Ju Dorotea - "Made in periferia"
Juliana Kehl - "Ladainha"
Karol Conká - "Farofei" [part. Boss in Drama]
Lamber Vision - "Casamento grego"
Lay - "Magia negra"
Letrux - "Coisa banho de mar"
Linn da Quebrada - "Pirigoza"
Mallu Magalhães - "Você não presta"
MC Beijinho - "Me libera nega"
MC Fioti - "Bum bum tam tam"
MC G15 - "Deu onda"
MC Kevinho - "Olha a explosão"
MC Livinho - "Azul piscina"
MC Nando DK & Jerry Smith - "Troféu do ano" [part. DJ Cassula]
MC Neguinho do Kaxeta - "Proliferação dos loucos"
MC Tha - "Bonde da pantera" [part. Omulu & King Doudou]
Momo - "Nanã"
Nação Zumbi - "Amor" [part. Ney Matogrosso]
Nego do Borel - "Você partiu meu coração" [part. Anitta e Wesley Safadão]
Nina Becker - "Vôo rasante"
Omulu - "Capiroto"
Onça Combo - "Atento aos corvos"
OQuadro - "Gang"
Otto - "Carinhosa"
Pabblo Vittar - "Corpo sensual" [part. Mateus Carrilho]
Parte Um - "En Garde, MMXVII"
Pato Fu - "I saw you saying"
Paulo Miklos - "Risco azul"
Rashid - "Estereótipo"
Rico Dalasam - "Fogo em mim" [part. Mahal Pita]
Rimas & Melodias - "Elza"
Rincon Sapiência - "Meu bloco"
Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis - "Absurdo 8"
Rodrigo Ogi - "Deixe-me"
RZO - "Uma multidão rumo à solidão" [part. Sombra]
Seu Pereira e Coletivo 401 - "Eu não sou boa influência pra você"
Simone & Simaria - "Loka" [part. Anitta]
Thiago Elniño - "Pedagoginga" [part. Sant e KMKZ]
Tiê - "Duvido" [part. Luan Santana]
Trupe Chá de Boldo - "Entre o mangue e o mar"
Tulipa Ruiz - "Game"
Valesca Popozuda - "Pimenta"
Vitor Ramil - "Stradivarius"
Xamã - "Bloody Mary"
Xênia - "Pra que me chamas?"
Zé Ed - "Confesso"
Zeca, Caetano, Moreno e Tom Veloso - "Todo homem"

p.s.: dessa vez o spotify perdeu do youtube e a playlist na plataforma não trouxe 5 das 80 músicas, incluindo ju dorotea ["made in periferia"], mc fioti [inexplicavelmente só tem uma versão remix latinizada do hit "bum bum tam tam"], onça combo ["atento aos corvos"], parte um ["en garde, mmxvii"] e xamã ["bloody mary"].

sábado, 30 de dezembro de 2017

65 + 45 discos brasileiros de 2017

acabei demorando mais do que esperava pra fechar as retrospectivas musicais brasileiras [as gringas, de discos e músicas, saíram mais rapidamente]. muita coisa como sempre, e querendo ser cuidadoso com tudo que ouvi e gostei e me fez pensar e cantar. mas taí, os discos brasileiros de 2017 segundo o esforçado. a de músicas já está pronta [só falta o texto rsrs].

os raps, sempre - e o rap brasileiro continua numa bueníssima onda com beats, misturas, assuntos e sotaques dos mais diversos. mas quatro discos se destacam entre os destaques: galanga livre do paulistano rincon sapiência, esú do baiano baco exu do blues, roteiro pra ainouz vol. 3 do cearense don l e eletrocardiograma da brasiliense flora matos. rincon e baco, cada um a seu modo, dialogam fortemente com a cultura e a história afro-brasileira, e a violência da opressão e preconceito, e o orgulho das raízes, do amor e da beleza, e o poder dos batuques e beats. já don l e flora, mais hedonistas, tratam de rolês mais pessoais e vão fundo nisso embalados por ótimas produções e excelentes rimas e flows.

rincon, baco, don, flora 
e o rap brasileiro em tempos de glória

só que no mundo rap dessa lista tem ainda a força da experiência no retorno do rzo [quem tá no jogo traz ainda participações de sombra, rael, criolo e negra li] e de mais um trabalho firme e caudaloso de rodrigo ogi [pé no chão], além do diálogo brasil X portugal no belo encontro de emicida, rael, valete e capicua [língua franca] e dos elétricos álbuns de estreia do desbocado djonga [heresia], do raivoso coruja bc1 [no dia dos nossos] e do rimas & melodias, coletivo de minas rappers que já possuem sólidas carreiras solo como tássia reis e drik barbosa.

tem ainda o grupo baiano oquadro com mais um disco irrepreensível [nêgo roque], a estreia solo do brasiliense froid no excelente o pior disco do ano, o surpreendente segundo trabalho de nill [regina é ao mesmo tempo doce, tocante e bem humorado], um rico dalasam mais eletrônico e festeiro [balanga raba] e a densidade dos mineiros matéria prima [2 atos, uma interessante parceria com gui amabis] e thiago elniño [a rotina do pombo]. além disso tudo, tem ainda rap nos delicados sambas urbanos de criolo [espiral de ilusão] e na presença de sombra, yzalú e lurdez da luz na ótima estreia do neompbístico [no bom sentido] coletivo rua.

pop, radicalmente - se o disco de estreia do grupo as bahias e a cozinha mineira era ao mesmo tempo teatral, dramático e universitário, no que isso tem de bom e ruim, este segundo trabalho [bixa] vai além como uma deliciosa, tropical e diversa festa autoral muito bem produzida por daniel ganjaman e com ainda melhores arranjos vocais de assucena assucena e raquel virginia. falando em tropicalidades, a estreia do produtor baiano àttøøxxá [#blvckbvng] é um novo caminho de ritmos para o pop nacional, é o pagodão eletrônico no topo. mas nada consegue ser tão desavergonhadamente pop quanto vai passar mal, de pabblo vittar, uma mistura de funk, forró, sertanejo , arrocha, reggae, trap, balada e muita auto estima [logo após anitta, que aparecerá bastante na lista de músicas, pabblo é certamente a grande figura pop do ano].

a maranhense pabblo vittar e o baiano àttøøxxá

instrumentais, majoritariamente - sensacional o que o macaco bong fez com o nirvana em deixa quieto [nevermind, tá ligado?], e lindo o passeio sonoro do duo cæs em santos 3am, e uma delícia de guitarradas em mais um registro de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro em combo cordeiro, e o bandolinista hamilton de holanda encarando com delicadeza o cancioneiro de milton nascimento em casa de bituca [com participações do próprio milton e de alcione], e a sempre atual herança de moacir santos, edu lobo, naná vasconcelos e baden powell tudo misturado em tempo dos mestres de fabiano do nascimento, e o metá metá mais uma vez quebrando tudo na trilha que fez para o grupo corpo [gira tem ainda participação luxuosa de elza soares], e a guitarra sempre instigante de fernando catatau em dois projetos paralelos [tarde, o segundo disco do lamber vision, e praia futuro, feito em parceria com dengue, yury kalil e ilhan ersahin], e o incansável thiago frança abriu e fechou o ano com dois discos curtos, variados e divertidos [chão molhado da roça e bomba, suor e bafo]. destaque especial para o disco de estreia do onça combo, um power trio paraibano que injeta jazz nas tradições musicais indígenas, ibéricas e nordestinas.

os paraibanos porretas do onça combo

cantautoras, intérpretes - e a safra musical brasileira segue alto nível com um punhado de discos de cantoras/compositoras nessa nossa vasta tradição cancioneira: alzira e, uma das preferidas da casa em qualquer tempo, trouxe mais uma beleza rascante, o corte; letícia novaes, metade do saudoso letuce, estreou solo com o eletrônico, noturno e oitentista letrux em noite de climão; xênia frança, uma das vozes do aláfia, também estreou solo com o forte xênia, disco de composições próprias e releituras de figuras como chico césar, antônio carlos & jocafi, luisa maita, verônica ferriani e tiganá santana; tulipa ruiz, acompanhada apenas de gustavo ruiz e stephane san juan, veio intimista, e até relendo algumas músicas do passado, em tu; linn da quebrada entortou o funk em pajubá, disco violentamente conceitual, experimental, sexual e político; luana carvalho mostrou toda a amplitude de sua poesia, sob produção de moreno veloso, nos discos irmãs branco e sul; e ainda teve o balanço de luciana oliveira em deusa do rio niger, as novas bossas de nina becker em acrílico e as múltiplas faces de mallu magalhães em vem.

alzira e, letícia "letrux" novaes e xênia frança

uns grupos, encontros - o excelente grupo paulistano aláfia não brinca em serviço e o terceiro disco deles, sp não é sopa, é mais um tratado sobre balanço, poesia, afrobrasilidades e política; os goianos do boogarins seguem aprimorando psicodelias em seu terceiro disco, lá vem a morte; e os cariocas do amor também experimentam mais e melhor em fodido demais; já os mineiros do pato fu soltaram mais um disco do seu projeto de versões “infantis” para hits nacionais e internacionais, o divertido música de brinquedo 2 [que tem gilberto gil, joão bosco & aldir blanc, raul seixas, raimundos, rita pavone, ricky martin, etc]; e falando em versões, o nação zumbi deu um tempinho nos discos autorais e fez seu primeiro de covers, o excelente radiola nz, vol. 1, que tem tim maia, beatles, david bowie, the specials, marvin gaye, gilberto gil e secos & molhados [com participação de ney matogrosso]; ainda no terreno das interpretações, o trupe chá de boldo lançou o belo verso que tem canções de amigos como alzira e, andré abujamra, negro leo, leo cavalcanti, iara rennó, marcelo segreto, pélico, juliano gauche e tatá aeroplano; e o tatá, aliás, reuniu-se com a amiga e parceira barbara eugênia nos folks delicados de vida ventureira; pra finalizar esse bloco, o surpreendente sambas do absurdo, o encontro de rodrigo campos com juçara marçal, gui amabis, nuno ramos [co-autor das músicas] e albert camus [inspiração do projeto].

os paulistanos/paulistas do aláfia - e olha xênia, novamente - 
e da trupe chá de boldo

uns caras - chico buarque e guilherme arantes, dois medalhões da música popular brasileira lançaram discos bem interessantes [caravanas e flores & cores, respectivamente]; mas outros veteranos se saíram ainda melhor, como foi o caso do gaúcho vitor ramil e seu delicado e milongueiro campos neutrais e o eterno titã paulo miklos com o belíssimo a gente mora no agora [que o colocou em parcerias com emicida, céu, tim bernardes, lurdez da luz, erasmo carlos, guilherme arantes, silva e russo passapusso]; o tim bernardes, por sua vez, deu uma pausa n’o terno pra lançar seu primeiro solo, o folk intimista confessional recomeçar; também são intimistas, e das mais bonitas e diversas formas, os novos discos de dudu tsuda [bicicleta], lucas santanna [modo avião é uma parceria multimídia de lucas com o escritor joão paulo cuenca e o desenhista rafael coutinho], momo [voá] e domenico lancellotti [serra dos órgãos], e as estreias de giovani cidreira [japanese food], lincoln [malvado canto], felipe s [cabeça de felipe] e zé ed; mas certamente os pontos altos desse bloco estão na crueza punk de cortes curtos de kiko dinucci, no lirismo dolorido de batatinha na voz de celso sim [o amor entrou como um raio], no tropicalismo de experimentos grooveados de boca do curumin e em mais uma beleza romântica e torturada, raivosa e sensível, de otto [ottomatopeia].

otto, paulo miklos e curumin

A Espetacular Charanga do França - Chão Molhado da Roça/Bomba, Suor e Bapho
Aláfia - SP Não é Sopa
Alzira E - Corte
As Bahias e a Cozinha Mineira - Bixa
ÀTTØØXXÁ - #BLVCKBVNG
Baco Exu do Blues - Esú
Barbara Eugênia e Tatá Aeroplano - Vida Ventureira
Boogarins - Lá Vem a Morte
Chico Buarque - Caravanas
Coletivo Rua - Coletivo Rua
Combo Cordeiro - Combo Cordeiro
Coruja BC1 - No Dia dos Nossos
Curumin - Boca
Djonga - Heresia
Do Amor - Fodido Demais
Domenico Lancellotti - Serra dos Orgãos
Dudu Tsuda - Bicicleta
Duo Cæs - Santos 3AM
Emicida, Rael, Valete e Capicua - Língua Franca
Fabiano do Nascimento - Tempo dos Mestres
Felipe S - Cabeça de Felipe
Fernando Catatau, Dengue, Yury Kalil e Ilhan Ersahin - Praia Futuro
Flora Matos - Eletrocardiograma
Giovani Cidreira - Japanese Food
Guilherme Arantes - Flores & Cores
Hamilton de Holanda - Casa de Bituca
Kiko Dinucci - Cortes Curtos
Lamber Vision - Tarde
Lincoln - Malvado Canto
Linn da Quebrada - Pajubá
Luana Carvalho - Branco/Sul
Lucas Santanna - Modo Avião
Luciana Oliveira - Deusa do Rio Niger
Macaco Bong - Deixa Quieto
Mallu Magalhães - Vem
Matéria Prima - 2 Atos
Metá Metá - Gira
Momo - Voá
Nação Zumbi - Radiola NZ, Vol. 1
Nina Becker - Acrílico
niLL - Regina
Onça Combo - Onça Combo
OQuadro - Nêgo Roque
Otto - Ottomatopeia
Pabblo Vitar - Vai Passar Mal
Paulo Miklos - A Gente Mora no Agora
Rico Dalasam - Balanga Raba EP
Rimas & Melodias - Rimas & Melodias
Rincon Sapiência - Galanga Livre
Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis - Sambas do Absurdo
Rodrigo Ogi - Pé no Chão
Thiago Elniño - A Rotina do Pombo
Tim Bernardes - Recomeço
Trupe Chá de Boldo - Verso
Tulipa Ruiz - Tu
Vitor Ramil - Campos Neutrais
Xênia França - Xênia
Zé Ed - Zé Ed

e como já é de lei aqui por essas bandas, uma segunda lista se faz necessária pela quantidade de discos interessantes lançados ano após ano. uns só não entraram na primeira por motivos de não ter ouvido tanto quanto outros. coisa de momento/oportunidade mesmo.

Airto Moreira - Aluê
Akira Presidente - Fa7her
André Sampaio - Alagbe
Angela Ro Ro - Selvagem
Arto Lindsay - Cuidado Madame
Banda Mantiqueira - Com Alma
Camarones Orquestra Guitarrística - Feeexta
Castello Branco - Sintoma
Chaiss - Chara
Cinnamon Tapes - Nabia
Conteção 33 - Ruas Sujas
Davi Moraes - Tá em Casa
Diomedes Chinaski & DJ Caique - Ressentimentos II
Gragoatá - Gragoatá
Haikaiss - Teto Baixo
Hermeto Pascoal & Big Band- Natureza Universal
João Donato e Donatinho - Sintetizamor
Johnny Hooker - Coração
Jonathan Tadeu - Filho do Meio
Juliana Kehl - Lua Full
Kalouv - Elã
Lia Sophia - Não Me Provoca
Luedji Luna - Um Corpo no Mundo
Luiza Lian - Oyá Tempo
Marcelo Callado - Musical Porém
Meia Dúzia de 3 ou 4 - 81 Anos de Tom Zé
My Magical Glowing Lens - Cosmos
Nana - CMG-NGM-PDE
Nevilton - Adiante
Nomade Orquestra - EntreMundos
Satanique Samba Trio - Xenossamba
Seu Pereira e Coletivo 401 - Eu Não Sou Boa Influência pra Você
Tetê Espíndola - Outro Lugar
Tiê - Gaya
Tribalistas - Tribalistas
Valério - Água Pedra
Vanguart - Beijo Estranho

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

onfalofobia, a reportagem

mais uma reportagem daora que fiz pra revista trip e dessa vez a pauta veio aqui de casa, com inspiração e ajuda da minha mulher, carolina. é que desde que estamos juntos fui proibido de vir com saliências pro umbigo da moça. então quando o renan fagundes, lá da trip, me contou desse tema 'umbigo' pra edição de novembro, lembrei logo dessa aflição de carolina, que me ajudou a fazer as perguntas e deu o norte para o tipo de abordagem do texto. depois fui no twitter e, surpreendentemente, em menos de uma hora consegui quatro fontes-fóbicas. e o resultado está aqui [como sempre, essa é a versão maior do texto que está nas páginas da revista].

agradecimentos especiais a bia lins, clara souza, daiana de souza e danilo moura que mostraram - pela primeira vez e em público - questões muito íntimas [as íntegras de suas entrevistas estão aqui]. outros agradecimentos à psicóloga paula bonilha e aos psicanalistas arnaldo dominguez e marilucia melo meireles que me ajudaram a entender isso tudo. e, acima de tudo, ao amore carolina, que tem um umbigo lindo [mesmo que ela não acredite].

umbigo, umbigo meu

O MEDO DO UMBIGO DIANTE DO COTONETE

Uma das imagens mais icônicas criadas pelo fetichismo cinematográfico de cinquenta tons de nove semanas e meia de amor é a do cubo de gelo dando voltas ao redor do umbigo, um filete de água gelada escorrendo para dentro dele e, por isso, uma mulher mordendo os lábios de prazer. Mas o que é sexy pra uns é motivo de agonia extrema, quase horror de sexta feira treze, para quem sofre de onfalofobia, o medo aflitivo de umbigos [onfalo é umbigo em grego, e fobia é fobia em qualquer lugar].

“A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, tinha uns dois anos, e ela fazia cócegas lá e eu chorava porque doía. Reconheci assim a existência do umbigo e que ele dói. Ainda hoje é como se fosse uma ferida em recuperação, mas ainda muito sensível”, explicou Bia Lins, arquiteta de Curitiba. 

Outras conexões com a mãe, o nascimento ou a primeira infância também são feitas por Daiana de Souza: “Minha mãe sempre ficou intrigada com essa sensação ruim, de agonia, que tenho. Porque veio já na minha infância. Pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe]”, disse a jornalista gaúcha de Campo Bom, região metropolitana de Porto Alegre.

Lembranças parecidas tem Carolina Toledo, analista de pesquisa de mercado em São Paulo, que diz que “não sei se minha mãe tentava limpar com cotonete quando eu era pequena. Mas a minha aflição não é uma coisa de olhar, foi sempre de tocar ou ser tocada. Dá uma sensação de enjoo, vontade de vomitar. É como se eu ficasse muito vulnerável, sabe? Parece uma invasão, dá sensação de fragilidade. E tem uma dorzinha física também.”

Mineira de Manhuaçu, Clara Souza também se sente vulnerável. “Tenho há muito tempo, não lembro quando começou. Talvez tenha desde sempre. Sinto uma coisa terrível quando alguém toca no meu umbigo. Não é cócega, não é tesão. É uma sensação de invasão, chega a me dar falta de ar”, recorda a fotógrafa que mora e trabalha em Salvador.

primeira dupla da matéria na trip

Não existem dados, estudos ou estimativas sobre onfalofóbicos no Brasil, e muito menos especialistas, grupos de apoio ou páginas no Facebook. É cada um por si, e cada um sem saber da existência de outros. “Quem sofre de onfalofobia acha que é mais uma aflição, o que sugere um nível de ansiedade menor, do que uma fobia. Mas ela é, verdadeiramente, uma fobia, afinal essas pessoas não conseguem fugir do medo. No entanto, como estão em contato com os umbigos diariamente acabam desenvolvendo recursos cognitivos pra lidar com aquela situação. Acaba sendo uma fobia mais branda. Não é paralisante, ou algo que comprometa o dia a dia, e talvez por isso não apareça em consultório”, explica a psicóloga comportamental Paula Bonilha, que tratou uma podofobia [medo dos pés], mas ainda não se deparou com fóbicos de umbigo.

Bia, Carolina, Clara e Daiana tem aflição do próprio e, principalmente, de mexerem nele. Com Danilo Moura a questão é mais externa. “Tenho problemas com esses umbigos para fora. É horrível, me dá agonia, uma sensação estranha. É como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco. Sinto o meu antebraço repuxando, os pelos ficam eriçados, uma aflição. Não é nada bom”, disse o assistente de importação em Diadema.

Será coincidência que as quatro mulheres onfalofóbicas ouvidas para esta reportagem tenham questões com o próprio umbigo e justamente o único homem tenha com o dos outros? “Mulheres geralmente têm mais fobias físicas que os homens. Primeiro porque, numa sociedade machista, é menos permitido ao homem sentir medo. Mas acima de tudo tem a questão da relação da mulher com seu próprio corpo, do tabu de certas partes, da maior ou menor exposição das mesmas, de pudor”, opina a psicóloga.

Mas quem vive isso íntima e solitariamente durante tantos anos – e a agonia só piorou com o passar do tempo –, tal questão de gênero é a menos importante. Daiana teve uma época de pesadelos recorrentes com alguém afundando o dedo em seu umbigo. Faz tempo que não os tem. Bia só dorme de bruços, pois tem uma sensação boa de proteção. Quando vira de barriga pra cima cobre o umbigo com as mãos e sempre evita dormir de lado. Danilo busca não olhar pessoas na praia ou piscina para não ser surpreendido por “umbigos pra fora”. Clara tem horror aos umbigos estufados das grávidas, mas precisa encará-los na pós-produção dos retratos que tira.

A gravidez, aliás, é uma grande questão para as onfalofóbicas. Clara não quer ter filhos e Bia, que nunca passou por uma gravidez, acredita que teria problemas ao mexer no umbigo de um bêbe. Daiana não conseguia limpar o umbigo de sua recém-nascida e o marido é que dava conta da tarefa. Hoje, um ano depois de dar à luz, ela consegue limpar, mesmo com alguma agonia. “O que pra mim é uma conquista e tanto”, comemora.

Carolina, que está grávida, não quer nem pensar no próprio umbigo nos próximos meses e também passou para o marido a responsabilidade de limpar o da futura filha nas primeiras semanas. E complementa: “Tenho aflição também com cordão umbilical, e já tinha isso antes de ficar grávida. É como se a qualquer momento o bebê pudesse me puxar pelo cordão, dar um tranco e doer meu umbigo”. Mas mesmo com toda essa aflição, Carolina prometeu enfrentar todos os umbigos do mundo por sua Tereza.

Daiana encarou seu medo, anos atrás, de outra forma. “Resolvi colocar piercing pra tentar boicotar esse troço chato. Pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Foi horrível. O negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando engravidei. E detalhe: a linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo”, e dá uma risada, sinal que a aflição anda perdendo terreno para o bom humor.

segunda e última dupla da matéria na trip

Ninguém ouvido por essa reportagem cogitou buscar tratamento. Muito pelo contrário. “Vi na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento, pego fita crepe e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia. Enfim, é um mal estar tão interiorizado que a gente não vê como um problema ou defeito, mas como uma característica pessoal”, e foi assim que Bia conseguiu momentos de tranquilidade.

Se quiserem, onfalofóbicos podem buscar ajuda profissional. “A função da fobia é a de proteger o sujeito da aproximação do desejo [do outro] e seu tratamento se dá, na psicanálise, pela via da transferência. Como a questão da fobia é muito colada no real, para que haja alguma eficácia simbólica exige-se do analista um ato. E a maioria dos analistas sofre de ‘horror’ do ato”, explicou Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista e fundador da Associação Etcétera e tal.

Já a terapia comportamental, muito mais pragmática, não possui essa aversão “ao ato” para o tratamento de fobias. “A gente ajuda o indivíduo a enfrentar aquela situação fóbica de uma forma gradativa e sistemática através de pensamentos cognitivos mais positivos. É uma técnica chamada dessensibilização sistemática. Mas, como a psicanálise, também acreditamos que fobia não precisa de medicação, é só terapia mesmo. Medicação só é necessária se a fobia estiver acompanhada de algum quadro depressivo”, afirmou Paula Bonilha.

Sem nunca antes terem falado conscientemente sobre suas fobias, Bia, Carolina, Clara, Daiana e Danilo até acham interessante a ideia de terapia, mas acreditam também que não é pra tanto. Só o fato de terem verbalizado a um completo estranho e saberem que não estão a sós “nessa maluquice” serviu como substituto gratuito para qualquer tratamento; pelo menos, por ora. Também ajuda terem parceiros(as) compreensivos(as). O resto dá-se um jeito.

E, afinal de contas, se pudessem escolher entre ter ou não ter umbigo? O que seria? ‘Ter’ foi a resposta unânime e enfática. “Mas preferia um que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porquê disso tudo pra poder fazer as pazes com o meu”, resumiu uma Daiana esperançosa de, finalmente, curar essa cicatriz.

onfalofobia, as entrevistas

seguem aqui a íntegra de quatro das cinco entrevistas que fiz com a turma que tem aflição de umbigos. elas [e ele] são protagonistas da reportagem que fiz pra edição de novembro da revista trip. carolina toledo, minha mulher e musa inspirada da vida [e da pauta], ficou de fora porque a entrevista com ela não teve essa formalidade das outras.


fotos de Frederic Fontenoy

BIA LINS, arquiteta, Curitiba-PR

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
A primeira coisa que vem à minha cabeça é AGONIA. E o ato reflexo imediato é pensar em proteger essa área do corpo.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
A sensação de agonia no umbigo parece ter me acompanhado desde cedo. A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, uns dois aninhos, de fazer cócegas, passar pelo umbigo e eu chorar porque doía. Reconheci a existência do umbigo e que ele dói.

Como você descreveria a sensação?
A sensação de agonia no umbigo passa por vários sentidos. O mais delicado deles com certeza é táctil. É como se fosse uma ferida em recuperação, mas muito sensível ainda. Você sabe que ali tem um machucado e protege automaticamente. Quase uma coisa de reflexo. Uma ferida de EXISTIR. Ouvir a palavra UMBIGO também gera desconforto e ver umbigos em imagens ou pessoalmente também é estranho, especialmente quando são aqueles umbigos pra fora. Aquela bolota ali dá arrepios na nuca. Mas a sensação mais forte é sensorial mesmo. Não é algo que passe pela razão, que você saiba atribuir uma causa, ou explicar claramente o que sente, mas se tivesse que escolher umas palavras seriam: dor, mal estar, insegurança, vulnerabilidade.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
A aflição é com o MEU umbigo. Não tem nada a ver com o umbigo dos outros, mas a associação imediata de que eu tenho um umbigo que dá agonia.  E nem parece agonia propriamente com o umbigo, mas com a região, como se, alegoricamente falando, fosse uma região de fluxo de energias, como se o umbigo fosse uma espécie de portal por onde coisas ruins teriam acesso. Os umbigos gorduchinhos, aquelas bolotas pra fora, no entanto, causam uma agonia grande quando vejo. O meu umbigo é bem fechado pra dentro, às vezes acho que foi fechado tão lá pra dentro que talvez fosse a causa dessa agonia, mas acho que não tem nada a ver porque todo mundo tem umbigo assim ou assado e nem por isso sentem agonia.

Essa aflição mudou durantes os anos?
O que foi mudando ao longo dos anos foi a consciência da agonia. Pra mim, acentuou. Sempre tive, mas me sinto mais sensível com o passar dos anos.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não deixei de fazer nada propriamente, é uma agonia que a gente carrega quase como um segredo, porque, você fala ‘tenho agonia no umbigo’ e as pessoas confundem com cócegas, ou sei lá o que, então a gente deixa quieto. Agora, por exemplo, pensei em fazer uma plástica abdominal e o cirurgião falou em mexer no umbigo. Pronto, gelei na hora! Falei que tenho agonia e ele disse que as pessoas sentem isso por causa do excesso de cuidado com o tal do umbigo dos bebês que acaba gerando essa hiper sensibilidade e que isso seria comum. Só de pensar, adivinha, agonia.

E na relações pessoais, íntimas?
Nas relações intimas a comunicação é tudo. Mas não basta sinalizar não. Tem que dizer com TODAS AS LETRAS, nem chega perto do meu umbigo. ‘Porque?’ é a pergunta. ‘Porque eu não gosto!’ é a resposta e nesse ponto não tem negociação. São as particularidades de cada um.

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não é um assunto que eu lembre de ter conversado com ninguém. Tá tão interiorizado esse mal estar que a gente não vê como um problema, mas como uma característica pessoal, uma coisa sua, não um defeito. Nunca parei pra pensar que possa haver uma cura pra isso. Estranho.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição?
Interessante que nunca conheci ninguém que falasse dessa tal agonia.

Tem alguma história engraçada ou pitoresca que aconteceu com vc relacionada a essa aflição de umbigo?
Essa delicadeza com o umbigo é peculiar. Por exemplo, só durmo de bruços, pois a sensação de proteção é boa. Se virar para dormir de barriga pra cima, durmo com as mãos sobre o umbigo. Dormir de lado é um problema porque pra segurar o umbigo com as mãos tem que dormir sobre o braço e daí a gente acorda com dor no corpo todo. Peculiar mesmo foi uma ocasião recente onde li na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento: Pego FITA CREPE e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Se eu pudesse escolher eu queria ter umbigo sim. Acho bonito. O que eu não queria ter é essa agonia.



CLARA SOUZA, fotógrafa, Manhuaçu-MG/Salvador

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Não sinto nada demais... meu "problema" com umbigo é só quando tocam.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Eu tenho há muito tempo e não me lembro de quando começou, talvez eu tenha desde sempre.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sinto uma coisa terrível... não é cócega, não é tesão. é uma sensação de invasão, acontece apenas quando alguém toca no meu umbigo... chega a me dar falta de ar. 

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Eu só tenho essa aflição com o meu... é apenas quando tocam. meu umbigo é bonitinho, acho ele mais bonito que a média [risos]. Eu, como fotógrafa, tenho horror a umbigo estufado e escuro de grávidas, trato todos na pós produção [risos].

Essa aflição mudou durantes os anos?
Piorou. 

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não. É muito íntimo. 

E na relações pessoais, íntimas?
Meu marido sabe que não gosto. Só toca nele quando quer fazer raiva em mim [risos].

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não... na verdade eu nem tinha me tocado quando a esse assunto. Achei legal isso ser tema de entrevista. Quero ler quando sair, pensava que só eu tinha essa maluquice. Nunca tinha ouvido falar que mais pessoas tivessem esse "problema".

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Eu prefiro ter.



DAIANA DE SOUZA, jornalista, Campo Bom-RS

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Tchê, me dá um arrepio. Uma sensação ruim, de agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que sentiu?
A vida toda! O que SEMPRE sinto é agonia. Inclusive, por muitas vezes, sonhei [tive pesadelo, na real] que alguém afundava o dedo no meu umbigo. Acordava como se tivesse saindo do inferno [mas é bem assim]. Faz tempo que não os tenho.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
É sensorial, táctil. É algo bizarro porque se assemelha aquela sensação ruim semelhante às cócegas. Quem pratica te vê rindo e acha que tu está então gostando. Mas aquela risada na verdade é de pura angústia. Pois bem, é assim com o lance do umbigo. E eu não rio. Mas me refiro à essa sensação angustiante. Porque ninguém leva a sério isso, sabe? Parece que tu está brincando quando diz: por favor, não encosta no meu umbigo. A pessoa vem e encosta que é pra ver a tua reação. Tipo o lance das cócegas. Insiste.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral?
Com o meu apenas. Ufa, né?

Essa aflição mudou durantes os anos?
Não. Quando eu tinha uns 25 anos resolvi colocar piercing no umbigo justamente pra tentar boicotar esse troço chato. Porque nem eu consigo encostar no meu umbigo. Sendo assim, àquela época pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Resultado: foi horrível, o negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Trash, viu? Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando eu engravidei, em 2016. Quanto mais a barriga crescia, mais a cicatriz se anunciava. E detalhe: meu umbigo estava PRETO na gestação. A linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo [risos].

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Sim, sim e sim. Por muito tempo eu tive que aceitar ter um umbigo sujo. Sim, sujo, porque ele é fundo [pro meu terror hahaha] e então nunca conseguia higienizar o local como deveria. Sentia vergonha do umbigo "sem trato", por assim dizer, e sentia uma sensação de derrota por tentar, tentar e não conseguir NUNCA fazer a limpeza. Hoje em dia, pós parto, eu já consigo limpar ali, colocar o dedo só pra me testar. O que pra mim é uma conquista e tanto [risos]. Quem sabe eu não esteja, devagarito, fazendo as tão sonhadas pazes com ele, né?

E na relações pessoais, íntimas?
Bah, sempre foi terrível isso. Como já comentei anteriormente: aquela coisa de que a pessoa não leva a sério que tu NÃO CURTE barato algum no teu umbigo. Hoje em dia, com meu querido marido [que sempre me compreendeu], me livrei dessa tortura. 

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Minha mãe sempre ficou intrigada com isso, justamente porque veio já na infância. Mas nunca deu muita bola. Eu já pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe].

A gestação alterou alguma forma na aflição de umbigo? Limpar umbigo da criança foi possível ou não? A relação com o umbigo mudou?
Pois então. Eu tinha uma coisa pra limpar o umbigo da minha filha [ainda tenho]. Mas quando ela era recém nascida, até ele cair, quem limpava era o Camilo, meu marido. Eu até fazia essa higiene na pequena, às vezes, mas com ressalvas. Hoje, um ano depois de ter dado à luz, eu consigo colocar a mão [o dedo] lá dentro e limpar [o meu e o dela]. Mas a agonia está lá.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? como foi?
Não, nunca ouvi alguém se queixar dessa mesma aflição. Agora tô me sentindo melhor por poder ter falado sobre

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Preferia ter um umbigo que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porque disso tudo. E fazer as pazes com o meu.



DANILO MOURA, assistente de importação, Diadema-SP

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Um umbigo pra fora, extremamente feio e muita agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Quando vi um umbigo "pra fora", aquilo é horrível. Aflição e a sensação estranha, como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sensorial. Sinto o meu antebraço repuxando, os pêlos ficam eriçados e não é nada bom. Aflitivo demais.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Umbigos pra dentro [apenas o buraco] é tranquilo, mas os que são externos são muito feios e me incomodam.

Essa aflição mudou durantes os anos?
Sim, piorou com o tempo.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não, mas evito olhar pras pessoas na praia ou piscina, pra não ser surpreendido [risos].

E nas relações pessoais, íntimas?
Não há problemas.

Você conversou sobre isso com alguém? chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Nunca havia pensado nisso, vou verificar essa possibilidade.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? Como foi?
Nunca encontrei e quase nunca falei sobre isso.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? pq?
Preferia não ter, sinto incômodo quando faço a limpeza do local.



já na parte dos especialistas, conversei com três e dois entraram no texto: a psicóloga comportamental Paula Bonilha e o psicanalista Arnaldo Dominguez. por motivos de um desencontro de agendas e deadline, a entrevista com a psicanalista Marilucia Melo Meireles acabou ficando de fora, o que foi uma pena porque tem reflexões ótimas. então segue aqui, na íntegra, a conversa por email com Marilucia.


Existe uma distinção entre aflição e fobia?
Não havia ainda pensado na existência desta distinção pois, para mim, a aflição pertence ao campo das manifestações psicológicas mais gerais e genéricas, enquanto que as fobias se encontram dentro do campo das manifestações inconscientes, simbólicas, tratadas no plural e nas singularidades, caso a caso, razão pela qual possuem significações muito próprias, sem semelhança estrutural entre elas.  Avançando mais nesta ideia, a aflição, a meu ver, caracteriza-se por um estado difuso, provisório, de suspensão emocional, que tanto pode se referir a uma ampla gama de sentimentos de mal-estar quanto aos ligados ao bem-estar de uma pessoa. A fobia, nutrindo-nos de alguns textos freudianos a esse respeito, é um sintoma próprio dos quadros das neuroses, em especial o da histeria de angústia, relacionado quase sempre ao surgimento explosivo da angústia.

Existe uma diferença de causas e tratamentos entre fobias físicas e fobias externas ao corpo (elevador, bichos, lugar cheio, etc)?
É importante o uso do plural em se tratando das manifestações fóbicas, pois não existe a possibilidade de isolarmos uma única causa como sendo o fator desencadeante bem como elas, frequentemente, se apresentam combinadas com outros tipos de neurose. Quase sempre são classificadas de acordo com o objeto a que se vincula a angústia. Neste caso tanto pode ser escolhido alguma parte do corpo quanto objetos na externalidade. Os exemplos mais comuns e que receberam em muitos casos “pomposos nomes gregos” são o medo do escuro, o de ser envenenado, o de altura, falar em público, o de animais peçonhentos, medo da morte, o de tempestades, a ereutofobia [medo de enrubescer], dismorfofobia [medo à deformidade] a claustrofobia, a agorafobia como expressão do isolamento e da solidão, a fobia social e as ligadas aos contágios, dentre outras. É importante salientar que todos os objetos do mundo [“externos” ou “físicos”, como você chamou] podem se oferecer, por deslocamentos, às depositações de nossas angústias.

As palavras que mais ouvi dos onfalofóbicos foram 'vulnerabilidade' e 'agonia'. Pq o umbigo sugere isso?
Durante estes anos de atividade clinica é a primeira vez que ouço falar de onfalofobia. Consultando a Internet e encontrei algumas matérias que se referiam a fobia de umbigos, mas que a meu ver são bem superficiais. Fiz também um rápido levantamento sobre o tema, entre colegas, que tampouco ouviram falar sobre o assunto. A hipótese que podemos levantar é a de que esta fobia comtempla uma nova terminologia dada, na contemporaneidade, a um tipo de expressividade para a circulação da angústia, concernente aos medos que nos habitam na atualidade. É certo que encontramos diversos tipos de manifestações sintomáticas próprias de cada época, de cada momento histórico. Se na época de Freud os sintomas giravam em torno de uma sexualidade encoberta de ricos segredos, hoje circulamos por um mundo em que a sexualidade vem sendo cada vez mais redefinida e explicitada. Acho, portanto, uma ótima oportunidade para reabrirmos essa questão levando em consideração o surgimento, na pós modernidade, de outras modalidades de fobia daí, talvez, ser a onfolafobia um bom exemplo de representação social.  Talvez incorramos no risco de ser a onfalofobia mais uma “palavra ônibus”, em que cabe tudo e ao mesmo tempo não nos diz nada. No entanto, se sustentarmos que as fobias são formas agudas de circulação da angústia podemos considerar que a parte do corpo ou o objeto que é seu depositário, na externalidade, é a expressão inequívoca da força que a cultura exerce na produção de novas sintomatologias para o nosso sofrer humano, existencial.

Pq a mesma parte do corpo sugere fobia e também fetiche?
Podemos considerar, a grosso modo, que na medida em que o fetiche possui como uma de suas inúmeras funções a de tamponar a eclosão da angústia na constatação, pelo olhar, da ameaça da castração, podemos fazer uma aproximação desta ideia com a função que o objeto fobígeno, enquanto aplacador do surgimento da angustia, possui. Na verdade, não existe nenhum objeto dotado de um poder contrário ao poder do objeto fóbico ou ao poder do objeto fetiche pois ambos operam no registro imaginário. No caso das fobias, os objetos são antídotos, ajudas, auxílios, que as pessoas se utilizam como dispositivos contra fóbicos, com a finalidade de evitarem a eclosão dos seus medos, das suas angústias. Quanto ao objeto fetiche podemos dizer que ele é o único objeto verdadeiramente e diretamente contrafóbico, um para- castração. Desta maneira, uma cobra, pode ser ao mesmo tempo um bicho esquisito, que horroriza que causa fobia ou, no caso do fetiche, pode compor a estampa de uma lingerie e ser a condição de possibilidade da experiência amorosa.

Na pequena amostra que peguei - 5 pessoas - foram 4 mulheres onfalofóbicas e apenas 1 homem. Mulheres são mais fóbicas com o corpo que os homens? Alguma razão pra isso?
Esta pergunta exigiria retomarmos todas as concepções que foram surgindo a partir de Freud a respeito da mulher e, por conseguinte, da feminilidade. Poderíamos apenas afirmar que há, na mulher, uma gramática psíquica, construída no vínculo estabelecido com seu objeto de amor, a mãe ou alguém que a substituiu, geradora da angústia do desamparo diante da separação do corpo materno e da perda do amor que justifica atribuirmos aos quadros fóbicos femininos. Seguindo por esta via, há também na doutrina psicanalítica outras conceituações clássicas e fundamentais, muito presentes nas formações imaginárias da fobia. Refiro-me, neste sentido aos temas relativos a psicossexualidade infantil: o complexo de castração, o binômio fálico-castrado, a inveja do pênis, todos relativos aos elementos constitutivos da estrutura edípica, incluindo ainda as etapas pré genitais da libido e posteriormente aos destinos que a pulsão vai se encaminhar, além, é claro  das teorias sobre a angústia. Acredito não ser possível fazermos nenhuma extrapolação ou tirar conclusões precipitadas seja pelo fato de que essa “amostragem” colhida possa ter sido simplesmente casual, seja porque, como mencionei anteriormente, as fobias devem ser tratadas no plural e em suas singularidades, caso a caso.

Como você trataria um onfalofóbico? Seria o mesmo tratamento de outras fobias?
Esta pergunta nos remete às distinções existentes entre os métodos tradicionais de cura, praticados pela medicina e o trabalho de análise, proposto pela psicanálise. No nosso caso, as escutas dos sintomas apresentados, terão uma destinação radicalmente opostas às dos sintomas médicos, que aqui não há espaço para desenvolver. O que poderia responder suscintamente, é que a tarefa do psicanalista, no caso de um atendimento de uma pessoa que sofre e que apresenta sintomas fóbicos, é a de usar o seu conhecimento e acolher o sofrimento do analisante sem evidenciar, questionar ou manifestar qualquer atitude diante dos medos, aflições, vividos por ela. O recomendado é atrever-se com o analisante para, juntos, percorrerem a longa  empreitada de um processo analítico, uma verdadeira encruzilhada de Tebas,  independente de serem sintomas, fóbicos ou não.