segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

onfalofobia, a reportagem

mais uma reportagem daora que fiz pra revista trip e dessa vez a pauta veio aqui de casa, com inspiração e ajuda da minha mulher, carolina. é que desde que estamos juntos fui proibido de vir com saliências pro umbigo da moça. então quando o renan fagundes, lá da trip, me contou desse tema 'umbigo' pra edição de novembro, lembrei logo dessa aflição de carolina, que me ajudou a fazer as perguntas e deu o norte para o tipo de abordagem do texto. depois fui no twitter e, surpreendentemente, em menos de uma hora consegui quatro fontes-fóbicas. e o resultado está aqui [como sempre, essa é a versão maior do texto que está nas páginas da revista].

agradecimentos especiais a bia lins, clara souza, daiana de souza e danilo moura que mostraram - pela primeira vez e em público - questões muito íntimas [as íntegras de suas entrevistas estão aqui]. outros agradecimentos à psicóloga paula bonilha e aos psicanalistas arnaldo dominguez e marilucia melo meireles que me ajudaram a entender isso tudo. e, acima de tudo, ao amore carolina, que tem um umbigo lindo [mesmo que ela não acredite].

umbigo, umbigo meu

O MEDO DO UMBIGO DIANTE DO COTONETE

Uma das imagens mais icônicas criadas pelo fetichismo cinematográfico de cinquenta tons de nove semanas e meia de amor é a do cubo de gelo dando voltas ao redor do umbigo, um filete de água gelada escorrendo para dentro dele e, por isso, uma mulher mordendo os lábios de prazer. Mas o que é sexy pra uns é motivo de agonia extrema, quase horror de sexta feira treze, para quem sofre de onfalofobia, o medo aflitivo de umbigos [onfalo é umbigo em grego, e fobia é fobia em qualquer lugar].

“A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, tinha uns dois anos, e ela fazia cócegas lá e eu chorava porque doía. Reconheci assim a existência do umbigo e que ele dói. Ainda hoje é como se fosse uma ferida em recuperação, mas ainda muito sensível”, explicou Bia Lins, arquiteta de Curitiba. 

Outras conexões com a mãe, o nascimento ou a primeira infância também são feitas por Daiana de Souza: “Minha mãe sempre ficou intrigada com essa sensação ruim, de agonia, que tenho. Porque veio já na minha infância. Pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe]”, disse a jornalista gaúcha de Campo Bom, região metropolitana de Porto Alegre.

Lembranças parecidas tem Carolina Toledo, analista de pesquisa de mercado em São Paulo, que diz que “não sei se minha mãe tentava limpar com cotonete quando eu era pequena. Mas a minha aflição não é uma coisa de olhar, foi sempre de tocar ou ser tocada. Dá uma sensação de enjoo, vontade de vomitar. É como se eu ficasse muito vulnerável, sabe? Parece uma invasão, dá sensação de fragilidade. E tem uma dorzinha física também.”

Mineira de Manhuaçu, Clara Souza também se sente vulnerável. “Tenho há muito tempo, não lembro quando começou. Talvez tenha desde sempre. Sinto uma coisa terrível quando alguém toca no meu umbigo. Não é cócega, não é tesão. É uma sensação de invasão, chega a me dar falta de ar”, recorda a fotógrafa que mora e trabalha em Salvador.

primeira dupla da matéria na trip

Não existem dados, estudos ou estimativas sobre onfalofóbicos no Brasil, e muito menos especialistas, grupos de apoio ou páginas no Facebook. É cada um por si, e cada um sem saber da existência de outros. “Quem sofre de onfalofobia acha que é mais uma aflição, o que sugere um nível de ansiedade menor, do que uma fobia. Mas ela é, verdadeiramente, uma fobia, afinal essas pessoas não conseguem fugir do medo. No entanto, como estão em contato com os umbigos diariamente acabam desenvolvendo recursos cognitivos pra lidar com aquela situação. Acaba sendo uma fobia mais branda. Não é paralisante, ou algo que comprometa o dia a dia, e talvez por isso não apareça em consultório”, explica a psicóloga comportamental Paula Bonilha, que tratou uma podofobia [medo dos pés], mas ainda não se deparou com fóbicos de umbigo.

Bia, Carolina, Clara e Daiana tem aflição do próprio e, principalmente, de mexerem nele. Com Danilo Moura a questão é mais externa. “Tenho problemas com esses umbigos para fora. É horrível, me dá agonia, uma sensação estranha. É como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco. Sinto o meu antebraço repuxando, os pelos ficam eriçados, uma aflição. Não é nada bom”, disse o assistente de importação em Diadema.

Será coincidência que as quatro mulheres onfalofóbicas ouvidas para esta reportagem tenham questões com o próprio umbigo e justamente o único homem tenha com o dos outros? “Mulheres geralmente têm mais fobias físicas que os homens. Primeiro porque, numa sociedade machista, é menos permitido ao homem sentir medo. Mas acima de tudo tem a questão da relação da mulher com seu próprio corpo, do tabu de certas partes, da maior ou menor exposição das mesmas, de pudor”, opina a psicóloga.

Mas quem vive isso íntima e solitariamente durante tantos anos – e a agonia só piorou com o passar do tempo –, tal questão de gênero é a menos importante. Daiana teve uma época de pesadelos recorrentes com alguém afundando o dedo em seu umbigo. Faz tempo que não os tem. Bia só dorme de bruços, pois tem uma sensação boa de proteção. Quando vira de barriga pra cima cobre o umbigo com as mãos e sempre evita dormir de lado. Danilo busca não olhar pessoas na praia ou piscina para não ser surpreendido por “umbigos pra fora”. Clara tem horror aos umbigos estufados das grávidas, mas precisa encará-los na pós-produção dos retratos que tira.

A gravidez, aliás, é uma grande questão para as onfalofóbicas. Clara não quer ter filhos e Bia, que nunca passou por uma gravidez, acredita que teria problemas ao mexer no umbigo de um bêbe. Daiana não conseguia limpar o umbigo de sua recém-nascida e o marido é que dava conta da tarefa. Hoje, um ano depois de dar à luz, ela consegue limpar, mesmo com alguma agonia. “O que pra mim é uma conquista e tanto”, comemora.

Carolina, que está grávida, não quer nem pensar no próprio umbigo nos próximos meses e também passou para o marido a responsabilidade de limpar o da futura filha nas primeiras semanas. E complementa: “Tenho aflição também com cordão umbilical, e já tinha isso antes de ficar grávida. É como se a qualquer momento o bebê pudesse me puxar pelo cordão, dar um tranco e doer meu umbigo”. Mas mesmo com toda essa aflição, Carolina prometeu enfrentar todos os umbigos do mundo por sua Tereza.

Daiana encarou seu medo, anos atrás, de outra forma. “Resolvi colocar piercing pra tentar boicotar esse troço chato. Pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Foi horrível. O negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando engravidei. E detalhe: a linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo”, e dá uma risada, sinal que a aflição anda perdendo terreno para o bom humor.

segunda e última dupla da matéria na trip

Ninguém ouvido por essa reportagem cogitou buscar tratamento. Muito pelo contrário. “Vi na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento, pego fita crepe e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia. Enfim, é um mal estar tão interiorizado que a gente não vê como um problema ou defeito, mas como uma característica pessoal”, e foi assim que Bia conseguiu momentos de tranquilidade.

Se quiserem, onfalofóbicos podem buscar ajuda profissional. “A função da fobia é a de proteger o sujeito da aproximação do desejo [do outro] e seu tratamento se dá, na psicanálise, pela via da transferência. Como a questão da fobia é muito colada no real, para que haja alguma eficácia simbólica exige-se do analista um ato. E a maioria dos analistas sofre de ‘horror’ do ato”, explicou Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista e fundador da Associação Etcétera e tal.

Já a terapia comportamental, muito mais pragmática, não possui essa aversão “ao ato” para o tratamento de fobias. “A gente ajuda o indivíduo a enfrentar aquela situação fóbica de uma forma gradativa e sistemática através de pensamentos cognitivos mais positivos. É uma técnica chamada dessensibilização sistemática. Mas, como a psicanálise, também acreditamos que fobia não precisa de medicação, é só terapia mesmo. Medicação só é necessária se a fobia estiver acompanhada de algum quadro depressivo”, afirmou Paula Bonilha.

Sem nunca antes terem falado conscientemente sobre suas fobias, Bia, Carolina, Clara, Daiana e Danilo até acham interessante a ideia de terapia, mas acreditam também que não é pra tanto. Só o fato de terem verbalizado a um completo estranho e saberem que não estão a sós “nessa maluquice” serviu como substituto gratuito para qualquer tratamento; pelo menos, por ora. Também ajuda terem parceiros(as) compreensivos(as). O resto dá-se um jeito.

E, afinal de contas, se pudessem escolher entre ter ou não ter umbigo? O que seria? ‘Ter’ foi a resposta unânime e enfática. “Mas preferia um que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porquê disso tudo pra poder fazer as pazes com o meu”, resumiu uma Daiana esperançosa de, finalmente, curar essa cicatriz.

onfalofobia, as entrevistas

seguem aqui a íntegra de quatro das cinco entrevistas que fiz com a turma que tem aflição de umbigos. elas [e ele] são protagonistas da reportagem que fiz pra edição de novembro da revista trip. carolina toledo, minha mulher e musa inspirada da vida [e da pauta], ficou de fora porque a entrevista com ela não teve essa formalidade das outras.


fotos de Frederic Fontenoy

BIA LINS, arquiteta, Curitiba-PR

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
A primeira coisa que vem à minha cabeça é AGONIA. E o ato reflexo imediato é pensar em proteger essa área do corpo.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
A sensação de agonia no umbigo parece ter me acompanhado desde cedo. A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, uns dois aninhos, de fazer cócegas, passar pelo umbigo e eu chorar porque doía. Reconheci a existência do umbigo e que ele dói.

Como você descreveria a sensação?
A sensação de agonia no umbigo passa por vários sentidos. O mais delicado deles com certeza é táctil. É como se fosse uma ferida em recuperação, mas muito sensível ainda. Você sabe que ali tem um machucado e protege automaticamente. Quase uma coisa de reflexo. Uma ferida de EXISTIR. Ouvir a palavra UMBIGO também gera desconforto e ver umbigos em imagens ou pessoalmente também é estranho, especialmente quando são aqueles umbigos pra fora. Aquela bolota ali dá arrepios na nuca. Mas a sensação mais forte é sensorial mesmo. Não é algo que passe pela razão, que você saiba atribuir uma causa, ou explicar claramente o que sente, mas se tivesse que escolher umas palavras seriam: dor, mal estar, insegurança, vulnerabilidade.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
A aflição é com o MEU umbigo. Não tem nada a ver com o umbigo dos outros, mas a associação imediata de que eu tenho um umbigo que dá agonia.  E nem parece agonia propriamente com o umbigo, mas com a região, como se, alegoricamente falando, fosse uma região de fluxo de energias, como se o umbigo fosse uma espécie de portal por onde coisas ruins teriam acesso. Os umbigos gorduchinhos, aquelas bolotas pra fora, no entanto, causam uma agonia grande quando vejo. O meu umbigo é bem fechado pra dentro, às vezes acho que foi fechado tão lá pra dentro que talvez fosse a causa dessa agonia, mas acho que não tem nada a ver porque todo mundo tem umbigo assim ou assado e nem por isso sentem agonia.

Essa aflição mudou durantes os anos?
O que foi mudando ao longo dos anos foi a consciência da agonia. Pra mim, acentuou. Sempre tive, mas me sinto mais sensível com o passar dos anos.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não deixei de fazer nada propriamente, é uma agonia que a gente carrega quase como um segredo, porque, você fala ‘tenho agonia no umbigo’ e as pessoas confundem com cócegas, ou sei lá o que, então a gente deixa quieto. Agora, por exemplo, pensei em fazer uma plástica abdominal e o cirurgião falou em mexer no umbigo. Pronto, gelei na hora! Falei que tenho agonia e ele disse que as pessoas sentem isso por causa do excesso de cuidado com o tal do umbigo dos bebês que acaba gerando essa hiper sensibilidade e que isso seria comum. Só de pensar, adivinha, agonia.

E na relações pessoais, íntimas?
Nas relações intimas a comunicação é tudo. Mas não basta sinalizar não. Tem que dizer com TODAS AS LETRAS, nem chega perto do meu umbigo. ‘Porque?’ é a pergunta. ‘Porque eu não gosto!’ é a resposta e nesse ponto não tem negociação. São as particularidades de cada um.

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não é um assunto que eu lembre de ter conversado com ninguém. Tá tão interiorizado esse mal estar que a gente não vê como um problema, mas como uma característica pessoal, uma coisa sua, não um defeito. Nunca parei pra pensar que possa haver uma cura pra isso. Estranho.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição?
Interessante que nunca conheci ninguém que falasse dessa tal agonia.

Tem alguma história engraçada ou pitoresca que aconteceu com vc relacionada a essa aflição de umbigo?
Essa delicadeza com o umbigo é peculiar. Por exemplo, só durmo de bruços, pois a sensação de proteção é boa. Se virar para dormir de barriga pra cima, durmo com as mãos sobre o umbigo. Dormir de lado é um problema porque pra segurar o umbigo com as mãos tem que dormir sobre o braço e daí a gente acorda com dor no corpo todo. Peculiar mesmo foi uma ocasião recente onde li na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento: Pego FITA CREPE e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Se eu pudesse escolher eu queria ter umbigo sim. Acho bonito. O que eu não queria ter é essa agonia.



CLARA SOUZA, fotógrafa, Manhuaçu-MG/Salvador

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Não sinto nada demais... meu "problema" com umbigo é só quando tocam.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Eu tenho há muito tempo e não me lembro de quando começou, talvez eu tenha desde sempre.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sinto uma coisa terrível... não é cócega, não é tesão. é uma sensação de invasão, acontece apenas quando alguém toca no meu umbigo... chega a me dar falta de ar. 

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Eu só tenho essa aflição com o meu... é apenas quando tocam. meu umbigo é bonitinho, acho ele mais bonito que a média [risos]. Eu, como fotógrafa, tenho horror a umbigo estufado e escuro de grávidas, trato todos na pós produção [risos].

Essa aflição mudou durantes os anos?
Piorou. 

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não. É muito íntimo. 

E na relações pessoais, íntimas?
Meu marido sabe que não gosto. Só toca nele quando quer fazer raiva em mim [risos].

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não... na verdade eu nem tinha me tocado quando a esse assunto. Achei legal isso ser tema de entrevista. Quero ler quando sair, pensava que só eu tinha essa maluquice. Nunca tinha ouvido falar que mais pessoas tivessem esse "problema".

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Eu prefiro ter.



DAIANA DE SOUZA, jornalista, Campo Bom-RS

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Tchê, me dá um arrepio. Uma sensação ruim, de agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que sentiu?
A vida toda! O que SEMPRE sinto é agonia. Inclusive, por muitas vezes, sonhei [tive pesadelo, na real] que alguém afundava o dedo no meu umbigo. Acordava como se tivesse saindo do inferno [mas é bem assim]. Faz tempo que não os tenho.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
É sensorial, táctil. É algo bizarro porque se assemelha aquela sensação ruim semelhante às cócegas. Quem pratica te vê rindo e acha que tu está então gostando. Mas aquela risada na verdade é de pura angústia. Pois bem, é assim com o lance do umbigo. E eu não rio. Mas me refiro à essa sensação angustiante. Porque ninguém leva a sério isso, sabe? Parece que tu está brincando quando diz: por favor, não encosta no meu umbigo. A pessoa vem e encosta que é pra ver a tua reação. Tipo o lance das cócegas. Insiste.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral?
Com o meu apenas. Ufa, né?

Essa aflição mudou durantes os anos?
Não. Quando eu tinha uns 25 anos resolvi colocar piercing no umbigo justamente pra tentar boicotar esse troço chato. Porque nem eu consigo encostar no meu umbigo. Sendo assim, àquela época pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Resultado: foi horrível, o negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Trash, viu? Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando eu engravidei, em 2016. Quanto mais a barriga crescia, mais a cicatriz se anunciava. E detalhe: meu umbigo estava PRETO na gestação. A linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo [risos].

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Sim, sim e sim. Por muito tempo eu tive que aceitar ter um umbigo sujo. Sim, sujo, porque ele é fundo [pro meu terror hahaha] e então nunca conseguia higienizar o local como deveria. Sentia vergonha do umbigo "sem trato", por assim dizer, e sentia uma sensação de derrota por tentar, tentar e não conseguir NUNCA fazer a limpeza. Hoje em dia, pós parto, eu já consigo limpar ali, colocar o dedo só pra me testar. O que pra mim é uma conquista e tanto [risos]. Quem sabe eu não esteja, devagarito, fazendo as tão sonhadas pazes com ele, né?

E na relações pessoais, íntimas?
Bah, sempre foi terrível isso. Como já comentei anteriormente: aquela coisa de que a pessoa não leva a sério que tu NÃO CURTE barato algum no teu umbigo. Hoje em dia, com meu querido marido [que sempre me compreendeu], me livrei dessa tortura. 

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Minha mãe sempre ficou intrigada com isso, justamente porque veio já na infância. Mas nunca deu muita bola. Eu já pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe].

A gestação alterou alguma forma na aflição de umbigo? Limpar umbigo da criança foi possível ou não? A relação com o umbigo mudou?
Pois então. Eu tinha uma coisa pra limpar o umbigo da minha filha [ainda tenho]. Mas quando ela era recém nascida, até ele cair, quem limpava era o Camilo, meu marido. Eu até fazia essa higiene na pequena, às vezes, mas com ressalvas. Hoje, um ano depois de ter dado à luz, eu consigo colocar a mão [o dedo] lá dentro e limpar [o meu e o dela]. Mas a agonia está lá.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? como foi?
Não, nunca ouvi alguém se queixar dessa mesma aflição. Agora tô me sentindo melhor por poder ter falado sobre

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Preferia ter um umbigo que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porque disso tudo. E fazer as pazes com o meu.



DANILO MOURA, assistente de importação, Diadema-SP

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Um umbigo pra fora, extremamente feio e muita agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Quando vi um umbigo "pra fora", aquilo é horrível. Aflição e a sensação estranha, como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sensorial. Sinto o meu antebraço repuxando, os pêlos ficam eriçados e não é nada bom. Aflitivo demais.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Umbigos pra dentro [apenas o buraco] é tranquilo, mas os que são externos são muito feios e me incomodam.

Essa aflição mudou durantes os anos?
Sim, piorou com o tempo.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não, mas evito olhar pras pessoas na praia ou piscina, pra não ser surpreendido [risos].

E nas relações pessoais, íntimas?
Não há problemas.

Você conversou sobre isso com alguém? chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Nunca havia pensado nisso, vou verificar essa possibilidade.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? Como foi?
Nunca encontrei e quase nunca falei sobre isso.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? pq?
Preferia não ter, sinto incômodo quando faço a limpeza do local.



já na parte dos especialistas, conversei com três e dois entraram no texto: a psicóloga comportamental Paula Bonilha e o psicanalista Arnaldo Dominguez. por motivos de um desencontro de agendas e deadline, a entrevista com a psicanalista Marilucia Melo Meireles acabou ficando de fora, o que foi uma pena porque tem reflexões ótimas. então segue aqui, na íntegra, a conversa por email com Marilucia.


Existe uma distinção entre aflição e fobia?
Não havia ainda pensado na existência desta distinção pois, para mim, a aflição pertence ao campo das manifestações psicológicas mais gerais e genéricas, enquanto que as fobias se encontram dentro do campo das manifestações inconscientes, simbólicas, tratadas no plural e nas singularidades, caso a caso, razão pela qual possuem significações muito próprias, sem semelhança estrutural entre elas.  Avançando mais nesta ideia, a aflição, a meu ver, caracteriza-se por um estado difuso, provisório, de suspensão emocional, que tanto pode se referir a uma ampla gama de sentimentos de mal-estar quanto aos ligados ao bem-estar de uma pessoa. A fobia, nutrindo-nos de alguns textos freudianos a esse respeito, é um sintoma próprio dos quadros das neuroses, em especial o da histeria de angústia, relacionado quase sempre ao surgimento explosivo da angústia.

Existe uma diferença de causas e tratamentos entre fobias físicas e fobias externas ao corpo (elevador, bichos, lugar cheio, etc)?
É importante o uso do plural em se tratando das manifestações fóbicas, pois não existe a possibilidade de isolarmos uma única causa como sendo o fator desencadeante bem como elas, frequentemente, se apresentam combinadas com outros tipos de neurose. Quase sempre são classificadas de acordo com o objeto a que se vincula a angústia. Neste caso tanto pode ser escolhido alguma parte do corpo quanto objetos na externalidade. Os exemplos mais comuns e que receberam em muitos casos “pomposos nomes gregos” são o medo do escuro, o de ser envenenado, o de altura, falar em público, o de animais peçonhentos, medo da morte, o de tempestades, a ereutofobia [medo de enrubescer], dismorfofobia [medo à deformidade] a claustrofobia, a agorafobia como expressão do isolamento e da solidão, a fobia social e as ligadas aos contágios, dentre outras. É importante salientar que todos os objetos do mundo [“externos” ou “físicos”, como você chamou] podem se oferecer, por deslocamentos, às depositações de nossas angústias.

As palavras que mais ouvi dos onfalofóbicos foram 'vulnerabilidade' e 'agonia'. Pq o umbigo sugere isso?
Durante estes anos de atividade clinica é a primeira vez que ouço falar de onfalofobia. Consultando a Internet e encontrei algumas matérias que se referiam a fobia de umbigos, mas que a meu ver são bem superficiais. Fiz também um rápido levantamento sobre o tema, entre colegas, que tampouco ouviram falar sobre o assunto. A hipótese que podemos levantar é a de que esta fobia comtempla uma nova terminologia dada, na contemporaneidade, a um tipo de expressividade para a circulação da angústia, concernente aos medos que nos habitam na atualidade. É certo que encontramos diversos tipos de manifestações sintomáticas próprias de cada época, de cada momento histórico. Se na época de Freud os sintomas giravam em torno de uma sexualidade encoberta de ricos segredos, hoje circulamos por um mundo em que a sexualidade vem sendo cada vez mais redefinida e explicitada. Acho, portanto, uma ótima oportunidade para reabrirmos essa questão levando em consideração o surgimento, na pós modernidade, de outras modalidades de fobia daí, talvez, ser a onfolafobia um bom exemplo de representação social.  Talvez incorramos no risco de ser a onfalofobia mais uma “palavra ônibus”, em que cabe tudo e ao mesmo tempo não nos diz nada. No entanto, se sustentarmos que as fobias são formas agudas de circulação da angústia podemos considerar que a parte do corpo ou o objeto que é seu depositário, na externalidade, é a expressão inequívoca da força que a cultura exerce na produção de novas sintomatologias para o nosso sofrer humano, existencial.

Pq a mesma parte do corpo sugere fobia e também fetiche?
Podemos considerar, a grosso modo, que na medida em que o fetiche possui como uma de suas inúmeras funções a de tamponar a eclosão da angústia na constatação, pelo olhar, da ameaça da castração, podemos fazer uma aproximação desta ideia com a função que o objeto fobígeno, enquanto aplacador do surgimento da angustia, possui. Na verdade, não existe nenhum objeto dotado de um poder contrário ao poder do objeto fóbico ou ao poder do objeto fetiche pois ambos operam no registro imaginário. No caso das fobias, os objetos são antídotos, ajudas, auxílios, que as pessoas se utilizam como dispositivos contra fóbicos, com a finalidade de evitarem a eclosão dos seus medos, das suas angústias. Quanto ao objeto fetiche podemos dizer que ele é o único objeto verdadeiramente e diretamente contrafóbico, um para- castração. Desta maneira, uma cobra, pode ser ao mesmo tempo um bicho esquisito, que horroriza que causa fobia ou, no caso do fetiche, pode compor a estampa de uma lingerie e ser a condição de possibilidade da experiência amorosa.

Na pequena amostra que peguei - 5 pessoas - foram 4 mulheres onfalofóbicas e apenas 1 homem. Mulheres são mais fóbicas com o corpo que os homens? Alguma razão pra isso?
Esta pergunta exigiria retomarmos todas as concepções que foram surgindo a partir de Freud a respeito da mulher e, por conseguinte, da feminilidade. Poderíamos apenas afirmar que há, na mulher, uma gramática psíquica, construída no vínculo estabelecido com seu objeto de amor, a mãe ou alguém que a substituiu, geradora da angústia do desamparo diante da separação do corpo materno e da perda do amor que justifica atribuirmos aos quadros fóbicos femininos. Seguindo por esta via, há também na doutrina psicanalítica outras conceituações clássicas e fundamentais, muito presentes nas formações imaginárias da fobia. Refiro-me, neste sentido aos temas relativos a psicossexualidade infantil: o complexo de castração, o binômio fálico-castrado, a inveja do pênis, todos relativos aos elementos constitutivos da estrutura edípica, incluindo ainda as etapas pré genitais da libido e posteriormente aos destinos que a pulsão vai se encaminhar, além, é claro  das teorias sobre a angústia. Acredito não ser possível fazermos nenhuma extrapolação ou tirar conclusões precipitadas seja pelo fato de que essa “amostragem” colhida possa ter sido simplesmente casual, seja porque, como mencionei anteriormente, as fobias devem ser tratadas no plural e em suas singularidades, caso a caso.

Como você trataria um onfalofóbico? Seria o mesmo tratamento de outras fobias?
Esta pergunta nos remete às distinções existentes entre os métodos tradicionais de cura, praticados pela medicina e o trabalho de análise, proposto pela psicanálise. No nosso caso, as escutas dos sintomas apresentados, terão uma destinação radicalmente opostas às dos sintomas médicos, que aqui não há espaço para desenvolver. O que poderia responder suscintamente, é que a tarefa do psicanalista, no caso de um atendimento de uma pessoa que sofre e que apresenta sintomas fóbicos, é a de usar o seu conhecimento e acolher o sofrimento do analisante sem evidenciar, questionar ou manifestar qualquer atitude diante dos medos, aflições, vividos por ela. O recomendado é atrever-se com o analisante para, juntos, percorrerem a longa  empreitada de um processo analítico, uma verdadeira encruzilhada de Tebas,  independente de serem sintomas, fóbicos ou não.

domingo, 10 de dezembro de 2017

80 músicas gringas de 2017

a segunda lista retrospectiva musical do esforçado é a de músicas gringas. boa parte dos discos da primeira lista tem seu representante aqui e alguns artistas dificultaram bastante a escolha de apenas uma música [para o bem da diversidade democrática da lista]. só para citar alguns: arcade fire, beck, big boi, bomba estereo, bonobo, brother ali, curtis harding, dj vadim, drake, ghostpoet, gorillaz, ibeyi, jamiroquai, jay-z, jidenna, kendrick lamar, leikeli47, little simz, lupe fiasco, morrissey, meridian brothers, nadia rose, oddisee, ozomatli, princess nokia, quantic & nidia gongora, sinkane, son little, sudan archives, vince staples e wale.

mas também apareceram alguns artistas que lançaram apenas singles no ano ou discos que acabaram não entrando na primeira lista. no primeiro caso, as excelentes rappers sa-roc e iamddb, frank ocean, aesop rock, layla moallem e a volta do n.e.r.d. [pharrell, chad hugo e shay haley] com a participação poderosa de rihanna. já no segundo caso, o rapper wiki, as cantoras lorde e sza, o produtor calvin harris e uma turma africana da pesada: cassper nyovest [áfrica do sul], jojo abot [gana] e olamide [nigéria]. e como não poderia deixar de ser, a inescapável "despacito" de luis fonsi, que é um reggaeton bem divertido mesmo e hit global merecidíssimo.


p.s.: na playlist do spotify faltaram jay-z ["the story of o.j."] e jojo abot ["nye veve sese"], enquanto na do youtube ficaram de fora abstract rude & dj vadim ["niggaz quartet"], drake ["ice melts"], gorillaz ["she’s my collar"], ozomatli ["eres"], vex ruffin ["the calling"], wiley ["lucid"] e zara mcfarlane ["stoke the fire"].


Abstract Rude & DJ Vadim - "Niggaz Quartet"
Aesop Rock - "Hot Dogs"
Aminé - "REDMERCEDES"
Arcade Fire - "Put Your Money On Me"
Beck - "Up All Night"
Big Boi - "Kill Jill" [feat. Killer Mike & Jeezy]
Bomba Estereo - "Duele"
Bonobo - "No Reason" [feat. Nick Murphy]
Brother Ali - "Never Learn"
Calvin Harris - "Feels" [feat. Pharrell Williams, Katy Perry & Big Sean]
Caro Emerald - "The Ghost of You"
Cassper Nyovest - "Nyuku"
Charlotte Gainsbourg - "Ring-A-Ring O’Roses"
Curtis Harding - "Face Your Fear"
Drake - "Ice Melts" [feat. Young Thug]
DJ Vadim & Blackstone - "Ride Slow"
El Michels Affair - "Tearz" [feat. Lee Fields & The Shacks]
Everything Is Recorded - "Mountains of Gold" [feat. Sampha, Ibeyi, Wiki & Kamasi Washington]
Frank Ocean - "Chanel"
Future - "Mask Off"
Ghostpoet - "Freakshow"
Goran Bregovic - "Pero" [feat. Bebe]
Gorillaz - "She’s My Collar" [feat. Kali Uchis]
IAMDDB - "Shade"
Ibeyi - "Deathless" [feat. Kamasi Washington]
Jamiroquai - "We Can Do It"
Jidenna - "Bambi"
Joey Bada$$ - "Rockabye Baby" [feat. ScHoolboy Q]
Jojo Abot - "Nye VeVe SeSe"
Kendrick Lamar - "Humble"
Khalid - "Young Dumb & Broke"
Lady Leshurr - "Juice"
Layla Moallem - "Sonnet 130" [feat. Jah-Zee]
LCD Soundsystem - "Tonite"
Leikeli47 - "Miss Me"
Little Dragon - "Sweet"
Little Simz - "Picture Perfect"
Lorde - "Green Light"
Luis Fonsi - "Despacito" [feat. Daddy Yankee]
Lupe Fiasco - "Jump" [feat. Gizzle]
Matias Aguayo & The Desdemonas - "Nervous"
Meridian Brothers - "Estaré Alegre, No Estaré Triste"
Morrissey - "Spent the Day in Bed"
Nadia Rose - "Big Woman"
Natalia Lafourcade & Los Macorinos - "Tú Sí Sabes Quererme"
N.E.R.D & Rihanna - "Lemon"
Nicole Willis & UMO Jazz Orchestra - "Haunted by the Devil"
Oddisee - "Like Really"
Olamide - "Wo!!"
Omar - "Déjà Vu" [feat. Mayra Andrade]
Ozomatli - "Eres"
Princess Nokia - "G.O.A.T."
Quantic & Nidia Gongora - "No Soy Del Valle (Version)"
Rapsody - "You Should Know" [feat. Busta Rhymes]
Roberto Lopez - "Las Aguas"
Sa-Roc - "I Am Her"
Shabazz Palaces - "Shine a Light" [feat. Thaddillac]
Sinkane - "Telephone"
SiR - "Ooh Nah Nah" [feat. Masego]
Snoop Dogg - "Toss It" [feat. Too $hort & Nef Da Pharaoh]
Son Little - "O Me O My"
Spoek Mathambo - "Blast Fi Mi" [feat. Loui Lvndn]
St. Vincent - "Los Ageless"
Sudan Archives - "Come Meh Way"
The Heliocentrics - "Made of the Sun" [feat. Barbora Patkova]
The Souljazz Orchestra - "Lufunki"
Tinie Tempah - "Holy Moly"
Tony Allen - "Life is Beautiful"
Toro y Moi - "Inside My Head"
Tricky - "Running Wild" [feat. Mina Rose]
Tyler The Creator - "Who Dat Boy?" [feat. A$AP Rocky]
Vex Ruffin - "The Calling"
Vince Staples - "BagBak"
Wale - "Mathematics"
Wiki - "Mayor"
Wiley - "Lucid"
Wyclef Jean - "Trapicabana" [feat. Riley]
Zara McFarlane - "Stoke the Fire"

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

os mais de 80 discos gringos de 2017

enquanto o louco ano de 2017 se esvai é hora de juntar os cacos e fazer listas. a primeira das habituais quatro retrospectivas musicais do esforçado é a de discos gringos e tem muita muita coisa boa. mais uma vez, o rap é foda, o resto é moda, e pouco mais de ¼ dessa primeira lista com 80 discos é do gênero que a cada ano é o mais inquieto e atual. e tem produção tanto de veteranos quanto de novatos, tanto de homens quanto de mulheres, mas quase sempre ali no eixo estados unidos-inglaterra.

sit down, be humble

kendrick lamar lançou o poderoso e irreparável damn. e jay-z voltou com faca nos dentes em 4:44, enquanto o jovem vince staples mostrou mais uma prova de seu veloz amadurecimento em big fish theory e o inglês ghostpoet veio com mais do seu lirismo sombrio em dark days + canapés. teve também os afrofuturismos de shabazz palaces nos dois discos de uma série chamada quazarz e do sulafricano spoek mathambo em mzansi beat code.

e umas minas afiadíssimas, desde o estilo mais old school de rapsody em laila’s wisdom até o grime pop de nadia rose em highly flammable, passando pelas experimentações de little simz em stilness in wonderland e pelas porradas atualíssimas de princess nokia em 1992 deluxe e leikeli47 em wash & set.

acima, little simz; abaixo, princess nokia

mas tem mais no rap gringo: os veteranos big boi, talib kweli, wu-tang clam e wiley continuam colocando o dedo na ferida, o popíssimo drake segue produzindo muito e em alto estilo, e os mais independentes brother ali, oddisee, joey bada$$, lupe fiasco, tyler the creator e wale firmam suas rimas e ousam nos beats.

outro dos “gêneros” preferidos da casa é o vasto mundo da música instrumental que pode ir tanto do jazz afrobeat do mestre tony allen no belo the source aos experimentalismos violinísticos de andrew bird em mais um trabalho da série echolocations; do envolvente ethiojazz de girma bèyènè [acompanhado dos franceses da banda akalé wubé] aos delírios psicodélicos dos suecos do goat em fuzzed in europe; do jazz arábico da trompetista yazz ahmed em la saboteuse aos metais em fúrias da hypnotic brass ensemble em book of sound; sem falar em outras figurinhas carimbadas por aqui como as bandas antibalas, the souljazz orchestra, the heliocentrics, el michels affair e hard proof, ou então o saxofonista kamasi washington, o multi-instrumentista e produtor shawn lee [em mais um encontro com a musicista chinesa bei bei] e o sempre misterioso clutchy hopkins [dessa vez em parceria com o igualmente misterioso fat albert einstein].

na mesma trilha que deu origem ao rap e parte desses sons instrumentais, a áfrica comparece na lista com novos trabalhos do casal amadou & mariam e dos grupos songhoy blues e tinariwen [todos do mali], da orchestra baobab [senegal] e também o encontro do malinês trio da kali com o renomado, americano e erudito kronos quartet, e a homenagem ao mestre nigeriano william onyeabor feito pelo super grupo the atomic bomb band [que tem integrantes do sinkane, hot chip, lcd soundsystem e antibalas, entre outros].

da áfrica pulamos para a américa latina que trouxe discos novos e excepcionais do selo zzk records – o grupo tremor e cantora dat garcia,ambos da argentina –, o belíssimo musas da mexicana natalia lafourcade e, como sempre, uma turma da pesada vinda da colômbia: bomba estereo e o solar ayo, meridian brothers e o loucão dónde estás maria?, mais um encontro fenomenal de nidia gongora com o produtor inglês quantic em curao e a novidade [por aqui] de roberto lopez com seu criollo electrik.

a colombiana nídia gongora e a mexicana natalia lafourcade

como já deu pra notar na lista até o momento – e quem viu listas de anos anteriores no esforçado já sabe –, a música negra é o grande norte das músicas ouvidas por aqui. e ainda nessa toada tem o excelente segundo disco do soulman curtis harding [face your fear], o póstumo da saudosa sharon jones [soul of a woman], o gospel finíssimo de the como mamas [move upstairs], os ecletismos blues rockers de son little [new magic] e sinkane [life and livin’ it], as porradas afropop de jidenna [the chief], e o impressionante segundo disco das irmãs ibeyi [ash], a interessante estreia solo de kele okereke [bloc party], a modernidade inquieta da jovem sudan archives e a doçura rascante de nicole willis.

também na lista, uma mistura de rock, pop, reggae, dub e música eletrônica. alguns artistas dificilmente não entrariam na minha lista, mas é sempre uma delícia ouvir novos e excelentes sons de gente como beck [colors], little dragon [season high], bjork [utopia], arcade fire [everything now], bonobo [migration], lcd soundsystem [american dream], st. vincent [masseducation], charlote gainsbourg [rest], gorillaz [humanz], ozomatli [non-stop: mexico to jamaica], camille [oui] e tricky [ununiform]. até aí, nada de novo. mas foi particularmente bom ouvir automaton, um jamiroquai que lembra o passado e está no presente, e low in high school, um morrissey tão dolorosamente bonito e consistente como a tempos não surgia.

morrissey & st. vincent

vindo por fora, o minimalismo com pegada de vex ruffin em conveyor, o rock eletrônico do chileno-alemão matias aguayo & the desdemonas [sofarnopolis], a variedade sonora e atual de everything is recorded [projeto de richard russell, produtor e dono do selo xl recordings, que tem participações de sampha, ibeyi e kamasi washington], o reggae jazzístico de zara mcfarlane [arise] e dois discos do grande dj vadim, um com abstract rude [the owl’s cry] e outro com blackstone [double sided].

e por último, mas não menos importante, three letters from sarajevo opus 1, o maravilhoso e multiétnico disco mais recente de um dos artistas preferidos da casa [e que andava meio sumido], o sérvio-bósnio goran bregovic.

goran bregovic, ídolo da casa

p.s.: quase todos os álbuns aqui listados estão com links pro spotify, com exceção de 4:44 do jay-z, third daughter da jovem doNormaal, the world is mind do krs-one e fela is the future de leeroy.

Abstract Rude & DJ Vadim - The Owl's Cry
Amadou and Mariam - La Confusion
Andrew Bird - Echolocations: River
Arcade Fire - Everything Now
Beck - Colors
Bei Bei & Shawn Lee - Year of the Funky
Big Boi - Boomiverse
Bjork - Utopia
Bomba Estereo - Ayo
Bonobo - Migration
Camille - Oui
Charlotte Gainsbourg - Rest
Clutchy Hopkins & Fat Albert Einstein - High Desert Low Tide
Curtis Harding - Face Your Fear
Dat Garcia - Maleducada
DJ Vadim & Blackstone - Double Sided
Drake - More Life
El Michels Affair - Return to the 37th Chamber
Everything is Recorded - Close But Not Quite EP
Girma Bèyènè & Akalé Wubé - Mistakes on Purpose
Gorillaz - Humanz
Hard Proof - Stinger
Hypnotic Brass Ensemble - Book of Sound
Ibeyi - Ash
Jamiroquai - Automaton
Jay-Z - 4:44
Jidenna - The Chief
Joey Bada$$ - ALL-AMERIKKKAN BADA$$
Kamasi Washington - Harmony of Difference EP
Kele Okereke - Fatherland
Kendrick Lamar - Damn.
LCD Soundsystem - American Dream
Leikeli47 - Wash & Set
Little Dragon - Season High
Little Simz - Stilness in Wonderland
Lupe Fiasco - DROGAS Light
Matias Aguayo & The Desdemonas - Sofarnopolis
Meridian Brothers - Dónde Estás Maria?
Morrissey - Low in High School
Nadia Rose - Highly Flammable
Natalia Lafourcade - Musas
Nicole Willis & UMO Jazz Orchestra - My Name is Nicole Willis
Oddisee - The Iceberg
Orchestra Baobab - Tribute to Ndiouga Dieng
Princess Nokia - 1992 Deluxe
Quantic & Nidia Gongora - Curao
Rapsody - Laila's Wisdom
Roberto Lopez - Criollo Electrik
Sharon Jones & The Dap Kings - Soul of a Woman         
Son Little - New Magic
Songhoy Blues - Résistance
Spoek Mathambo - Mzansi Beat Code
St. Vincent - Masseducation
Sudan Archives - Sudan Archives EP
Talib Kweli - Radio Silence
The Atomic Bomb Band - Plays the Music of William Onyeabor
The Como Mamas - Move Upstairs
The Heliocentrics - A World of Masks
The Souljazz Orchestra - Under Burning Skies
Tinariwen - Elwan
Tony Allen - The Source
Tremor - Ave Reina Mora
Tricky - Ununiform
Trio da Kali & Kronos Quartet - Ladilikan
Tyler The Creator - Flower Boy
Vex Ruffin - Conveyor
Vince Staples - Big Fish Theory
Wale - SHINE
Wiley - Godfather
Wu-Tang Clan - The Saga Continues
Yazz Ahmed - La Saboteuse
Zara McFarlane - Arise

e como já é de praxe aqui no esforçado, a lista A vem acompanhada sempre de uma lista B porque, afinal de contas, tem coisa boa pra cacete.

Amerigo Gazaway - A Common Wonder
Aminé - Good For You
Animal Collective - The Painters EP
Aurelio - Darandi
Beatnick & K-Salaam - The Bluest Flame
Benjamin Clementine - I Tell a Fly
Bob Dylan - Triplicate
Caro Emerald - Emerald Island EP
Cécile McLorin Salvant - Dreams and Daggers
Chicano Batman - Freedom is Free
Daymé Arocena - Cubafonia
Dee Dee Bridgewater - Memphis... Yes, I'm Ready
Depeche Mode - Spirit
DJ Khaled - Grateful
doNormaal - Third Daughter
Future - HNDRXX/FUTURE
Gaby Hernandez - Spirit Reflection
Gogol Bordello - Seekers and Finders
Gonjasufi - Mandela Effect
Hercules & Love Affair - Omnion
Homeboy Sandman - Veins
Hot 8 Brass Band - On the Spot
Ibibio Sound Machine - Uyai
Ikebe Shakedown - The Way Home
Jonti - Tokorats
Kelela - Take Me Apart
Khalid - American Teen
L’Orange - The Ordinary Man
Lady Leshurr - Mode EP
Lee 'Scratch' Perry & Subatomic Sound - Super Ape Returns to Conquer
Mavis Staples - If All I Was Was Black
Migos - Culture
Mitú - Cosmus
Moses Sumney - Aromanticism
Prophets of Rage - Prophets of Rage
Rhi - Reverie
Rick Ross - Rather You Than Me
Sara Tavares - Fitxadu
Sébastien Tellier - A Girl is a Gun
Shamir - Revelations
SiR - Her Too EP
Snoop Dogg - Neva Left
Talaboman - The Night Land
The Frightnrs - More to Say Versions
The Underachievers - Renaissance
The xx - I See You
Thundercat - Drunk
Tinie Tempah - Youth
Toro y Moi - Boo Boo
Vic Mensa - The Autobiography
Wrongtom & The Ragga Twins - In Time
Wyclef Jean - Carnival III: The Fall and Rise of a Refugee