sexta-feira, 9 de junho de 2017

o brasil pega mal

o ano pós-golpe não anda fácil para o brasil, mas para frilas jornalísticos está um pouco pior. sorte que de vez em quando surge alguma coisa bacana, como, por exemplo, essa matéria que fiz para a edição de maio da revista trip [anitta na capa] sobre iniciativas para aumentar a acessibilidade da internet no país. a pauta veio do editor renan fagundes e a reportagem foi ilustrada por beto shibata. delícia falar com várias fontes e costurar os muitos lados de um tema complexo e atual. ah, tem a matéria também no site da trip. detalhe: acabei colocando como título do post o que ficou na revista e deixei aqui meu título original.


LIGANDO OS PONTOS

Metade das casas brasileiras já possui acesso a internet, mas e a outra metade? Saiba mais sobre algumas iniciativas – independentes, privadas e públicas – que pretendem conectar áreas remotas do Brasil

No caminho para a maior cachoeira do Estado do Rio de Janeiro, a 32 quilômetros de Resende, existe um povoado chamado Fumaça. Por lá vivem cerca de 800 pessoas e os mais velhos ainda o tratam como Aldeia por ter sido a última morada dos índios Puris. É difícil a comunicação com o mundo a partir do distrito: os três orelhões estão quebrados e sem previsão de conserto, e um antena instalada anos atrás só pega (mal) na Praça da Matriz. Daí que, em 2015, o coletivo Nuvem - Estação Rural de Arte e Tecnologia recebeu uma bolsa internacional para a criação de uma rede wifi e de uma rede autônoma de celular na vila. A vida dos moradores de Fumaça nunca mais foi a mesma.

“Meu filho está em Portugal e hoje consegui falar com ele devido a internet. Tive notícias, sei o que ele está fazendo, como está, e ele também teve notícias da gente. Isso foi maravilhoso”, declarou Elizabeth Nunes, 63 anos, após a instalação dessa rede livre, gratuita, participativa, que não passa por empresas e é gerida pela própria comunidade. Para a pequenina Fumaça a internet deixou de ser um privilégio, só que para 70 milhões de brasileiros que ainda estão desconectados, segundo dados recentes da ONG Internet.org, essa realidade ainda é distante.  Dentre esses 70 milhões quem é mais atingido por esse isolamento estão, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2014, nas zonas rurais, no Norte e Nordeste, tem mais de 50 anos, são negros, e possuem menores faixa salarial e nível de instrução. 

E o que está sendo feito para mudar essa que é uma das muitas desigualdades brasileiras? Internet é um privilégio ou um direito? “A internet é um direito humano essencial porque é um direito à comunicação. Isso está na Constituição e, mais recentemente, no Marco Civil da Internet”, afirmou Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Internet e Cultura.

Sancionado em 23 abril de 2014, o Marco Civil é tido como referência mundial para legislações que tratam da internet.  O texto da lei garante neutralidade da rede, privacidade dos usuários, liberdade de expressão, retenção de dados, e obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores, entre outros temas. Prioriza e assegura, enfim, o caráter aberto da internet.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas como garantir um maior acesso a internet em um país tão grande quanto o Brasil? “Pois é, um dos grandes problemas do país é que o acesso a internet está muito ligado ao mercado consumidor e sua territorialidade. O acesso a banda larga, por exemplo, está concentrado no litoral brasileiro e nas regiões mais ricas do interior. Então, deixar a regulação ser feita pela iniciativa privada acaba gerando um grande número de pessoas sem acesso porque não é economicamente atrativo para as teles”, diz Malini.

Os ativistas da Nuvem, por exemplo, foram na contramão dessa lógica do mercado com a criação de redes como a de Fumaça. Esse projeto serviu também como um dos embriões da Coolab, iniciativa formada por pessoas que trabalham com tecnologia e redes livres e que está “começando agora este processo de apoiar comunidades a se conectarem com recursos e suporte, inspirados pelos princípios cooperativistas e com base na economia colaborativa”, como explicam coletivamente. “Além da metodologia aberta e colaborativa que capacita a própria comunidade a construir sua rede e fazer a manutenção, o modelo de trabalho da Coolab é também aberto e replicável.”

A Coolab cita que, além da Fumaça, os integrantes do coletivo também criaram redes comunitárias no Quilombo Kalungas (Goiás), uma rede de transmissão de dados digitais por ondas curtas na Amazônia, provedores comunitários em Campos (Rio de Janeiro) e implementaram uma rede autônoma na Casa dos Meninos (São Paulo). Mas essas ações, por mais replicáveis e abertas que sejam, são trabalho de formiguinha perto da (ainda) grande lacuna do país em termos de acessibilidade.  


E a iniciativa privada? Um exemplo no Nordeste diz muito sobre como uma aguçada percepção de potencialidades regionais pode transformar acesso em lucro. Fundada em 1998, a Brisanet é a realização do sonho de um empreendedor local, José Roberto Nogueira, que saiu de sua terra natal (Pereiro, interior do Ceará) para trabalhar instalando painéis de aviões na Embraer. Curioso e inquieto, Nogueira sempre quis voltar para resolver problemas de sua região e gerar negócios, e com o dinheiro de uma loja de informática que montou em São José dos Campos começou a construir antenas de rádio. Salto no tempo para 2010, quando Nogueira, já de volta ao berço, viu sua Brisanet se tornar a maior operadora de internet a rádio do Brasil, com 30 mil clientes em 150 cidades nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Nos últimos anos, a transmissão por rádio vem sendo substituída pela fibra ótica, mais segura e rápida, e a Brisanet agora tem planos de, até o fim do ano, chegar a Pernambuco, atingindo assim um total de 230 cidades no semi-árido nordestino. Nogueira, que fez curso de eletrônica por correspondência no início dos anos 1980, sabia desde sempre que sua terra possuía muita gente curiosa e inquieta como ele, mas que sem acesso a conhecimento e a ferramentas não via seu talento florescer. Oferecer todas essas oportunidades, via internet, é estimular negócios, criatividade, produção, sonhos. E isso dá retorno (atualmente, a Brisanet emprega cerca de 1300 pessoas).

Empresas pequenas e médias como a Brisanet são responsáveis por quase 50% dos atendimentos de banda larga no Brasil, de acordo com o Clube de Engenharia. Mas segundo elas próprias, o Governo Federal poderia estimular mais esses negócios e, consequentemente, melhorar a acessibilidade em regiões fora dos eixos. “(Poderia) facilitar e baratear o uso das infraestruturas já existentes, como os postes de utilização da faixa de domínio das rodovias federais e estaduais; criar linhas de financiamento especificas ou incentivos fiscais para pequenas e médias operadoras em regiões mais remotas, pois são elas que estão fazendo esse processo de inclusão digital”, afirma Jordão Estevam, diretor comercial e sócio da Brisanet.

Enquanto isso, no Senado Federal, tramita um projeto de lei (PLS 431/2014), que “permite que Governo Federal assuma a instalação e a operação da banda larga nas regiões mais remotas ou menos desenvolvidas, onde o serviço não é rentável para as empresas privadas”. O dinheiro para custear tamanha empreitada viria do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mas não existe nenhuma previsão de quando isso se tornará realidade.

Outra ação federal é o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégicas (SGDC) que deveria ter sido lançado em março para ajudar a expandir o acesso à internet banda larga no país, “especialmente em regiões mais carentes em infraestrutura”. Dividido em duas bandas, uma exclusiva das Forças Armadas e outra para comunicação, o satélite tem sofrido críticas tanto de ativistas digitais quanto de pequenos e médios empresários, pois suas regras de utilização mudaram recentemente quando a banda de comunicação foi dividida em quatro lotes, sendo que três (79%) seriam controlados por grandes da iniciativa privada. Em poucas palavras, sobraria pouco para o serviço público e os pequenos e médios fornecedores não teriam espaço para competir. 

Mas afinal, internet é um privilégio ou um direito? Na teoria, um direito. Na prática, um privilégio para cerca de 70 milhões de brasileiros. No entanto, o caráter aberto da internet , esse “mecanismo de desentermediação do mundo” (nas palavras do professor Fábio Malini), talvez seja justamente o melhor jeito de compartilhar conhecimento, derrubando assim privilégios e garantindo direitos. Os moradores de Fumaça já perceberam isso.

domingo, 21 de maio de 2017

a virada vazia do "gestor"

ainda antes de tomar posse no início de janeiro, o “gestor” deixou claro que desejava esvaziar e vender são paulo, mais ou menos nessa ordem. e então veio a ideia cretina, uma de suas muitas, de tirar a virada cultural do centro da cidade para “descentralizá-la” em interlagos (!!!). houve uma grande gritaria de movimentos sociais, artistas e setores culturais, e o secretário andré estrume falou que não era bem assim, só os shows grandes e tal, mas que haveriam sim menos atrações no centro – destruindo assim o conceito original do evento criado em 2005 na administração do igualmente tucano, josé serra. enfim, a virada estava morta. só faltava o velório. 

sim, doria mente [e muito]

não dá nem pra dizer “bem feito” em um caso assim porque acompanhar o assassinato de um evento tão bacana, tão são paulo – mesmo com seus erros e problemas, maiores ou menores dependendo da gestão –, é de machucar o coração. triste ver daniela mercury cantando pra meras 2 mil pessoas no anhembi [ela que no aniversário da cidade em 2016, o último ano da gestão haddad, levou uma gigantesca multidão da faria lima até a praça roosevelt]; triste ver os cancelamentos de shows de fafá de belém [anhembi, falta de público] e mano brown [grajaú, problemas na estrutura do palco]; triste ver o parque do carmo vazio; triste não terem montando o palco da festa talco bells no centro; triste ver a viradinha sem público espremida entre cercas em interlagos e disputando atenção com o ronco de motores de uma corrida de stock car; triste ver um palco repleto de veteranos da música brasileira como paulo diniz, luis vagner, carlos dafé e tony tornado sem rampa de acessibilidade; triste ver palcos muito distantes um do outro no outrora agitadíssimo centro da virada; triste triste triste.

o público de daniela mercury no anhembi

não foi à toa que o “gestor” não postou nada sobre o evento em suas caudalosas redes sociais – a são paulo que ele administra, principalmente no facebook, está bem distante da são paulo real – e não foi à toa mesmo que ele e alckmin resolveram aproveitar o domingo da virada para invadir a cracolândia com mais de 500 policiais [mais gente que em muitos palcos] e acabar com o programa braços abertos [criado na gestão haddad para ressocialização de dependentes]. em outros anos, a praça júlio prestes vivia um domingo de virada com festa e inclusão. com doria e alckmin veio a violência, o vazio e a limpeza para os amigos da especulação imobiliária.

doria está fazendo com a virada, entre outras coisas na cidade, o que é um costume histórico de seus pares do psdb: esculhamba um serviço público, diz que não dá pra manter e o privatiza. só que o espertão que “consegue” doações de amigos empresários “sem contrapartida” parece não saber que o empresariado brasileiro é um dos mais encostados, corruptos e desinteressados do mundo. jamais bancariam por si só um evento como a virada. só colocam um dinheirinho porque o resto é bancado pela administração pública. então nem vai rolar de privatizar a virada. esvaziá-la é matá-la, caro “gestor”. 20 e 21 de maio 2017 ficarão marcados como os dias dos últimos suspiros de um dos eventos culturais mais interessantes da cidade e do brasil.

a viradinha em interlagos

fui em quase todas as edições da virada, trabalhando ou como espectador, e presenciei alguns momentos inesquecíveis dessa união de cultura, cidade e gente. conheci também várias pessoas que trabalham duramente na secretaria de cultura para fazer esse e outros eventos públicos acontecerem. triste pensar em tudo isso, nessas pessoas vivendo essa destruição de dentro e tendo que aguentar as arrogâncias e os desinteresses da dupla andré estrume e joão dollar. triste triste triste.

morreu são paulo de braços abertos [todas as fotos vieram do uol/folha]

p.s.: bem feito mesmo foi pro bradesco que pagou 2 milhões de golpes pra aparecer num evento todo destruído.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

lincoln, o release

dando sequência à recente buena onda de frilas-release - já rolaram aqui héloa e zé ed -, agora é a vez de lincoln. baiano, brasiliense e paulistano de muitos talentos, lincoln acabou de lançar seu disco de estreia solo. não sabia nada sobre ele, seu som, nada nada, e foi uma bela surpresa encontrar um trabalho tão coeso, bem escrito e bem produzido [e acompanhado de músicos experientes como guilherme held e fábio sá]. com vocês, o release, o clipe de "fica a dica" e a íntegra do disco malvado canto.



Entre idas e vidas, Lincoln foi e é um tanto de várias coisas. Artista plástico, compositor, web-designer, músico, designer de produtos e cantor, além de baiano de nascimento, brasiliense, paulistano e até com uma passagem pelos Estados Unidos para estudos. Mas ele sempre quis, acima de tudo, mostrar sua música, mesmo quando se escondia [ou se procurava] em experimentações pessoais. Agora, aos 35 anos, o artista sai das sombras com seu primeiro disco solo, o belo Malvado Canto.

Só que antes de falar do disco se faz necessário um rápido flashback. Dois anos atrás, após uma combinação explosiva de crise de identidade e desilusão amorosa, Lincoln sentiu necessidade de um aconselhamento espiritual. Foi então que ouviu que precisava mostrar o que estava escondido, precisava cantar. 

A partir daí, como num passe mágico, caminhos se abriram, encontros se multiplicaram, todas as letras do futuro disco nasceram em apenas uma hora e as músicas foram compostas em duas semanas em parceria com Nei Zigma, que acabou assinando Malvado Canto como produtor musical. E o disco se fez, foi feito: conciso em suas 10 faixas, rebuscado em sua afetividade e pop na vontade de se comunicar. Então, solte o som & o canto, Lincoln.



“Fica a dica”, a música que abre o disco, é um rock confessional com metais abolerados e versos cortantes como “Se ele soubesse mirar no espelho / Veria mais fácil o outro sem medo”. Já “Um a um” é balada mansa de coração à mostra, daquela que traz lembranças de amores encontrados e perdidos. Mas esse tom conciliatório muda em “Escorpiônico”, uma canção de sentimentos à flor da pele no qual Lincoln grita, entre dentes, que um ex-amor “se satisfez matando um tanto de outra pessoa”. Tem raiva, frustração e desencantamento nessa música que, não coincidentemente, traz os versos que dão o nome ao disco Malvado Canto.

Só que Lincoln sabe que [o fim de] uma história de amor tem mais de uma versão, muito mais que uma leitura, e em “Silêncio e melancolia” ele dá um passo atrás e assume suas próprias responsabilidades. E é com alegria, musical inclusive, que faz isso. É tempo de reconciliação, ou pelo menos de tentativa, e surge então “O fardo do amor”, um belo pós-fado de alguém que só quer carinho. Daí que certas coisas quebradas não tem conserto, não tem cola que dê jeito, e Lincoln entende que “Já é tarde”, uma canção dolorosamente pé no chão.

Enquanto o disco se aproxima do fim, o artista, compositor e cantor olha para frente, buscando entender seus próprios desejos, medos e dúvidas. Entre efeitos e pedais, a guitarra de Guilherme Held ajuda muito a transformar em realidade as tantas emoções diferentes que saem do malvado canto de Lincoln [mas Lincoln, Zigma e Held não estão sozinhos nessa empreitada e é sempre importante citar músicos que colaboram decisivamente nos arranjos finais, tais como Fabio Sá e José Aurélio, além das participações de Marcelo Sanches, Gustavo Da Lua e Natan Oliveira].



“Frieza”, “Padrão”, “Trato de dono” e “Deita em mim”, as últimas faixas do disco, completam o arco narrativo proposto, mesmo que não todo conscientemente, por Malvado Canto. E assim Lincoln oferece sua primeira e bela contribuição solo para uma das mais fortes tradições da música popular brasileira, a saga dos afetos. Não é pouco e é só o começo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

de barafondas e sambas, a barra funda

não sei porque diabos deixei de colocar aqui um frila legal que fiz em 2014 - convite do michel blanco, amigo desde os tempos da coluna do yahoo. o lance era escrever um texto grande sobre a história da barra funda, bairro tradicional da região central de são paulo. lá fui andar a pé pelo bairro e pesquisar. de algumas coisas já sabia, poucas, e as que conhecia era de modo superficial [sabia que é considerado o berço do samba paulistano, mas não de que modo aconteceu ali]. trabalho massa que resultou numa das partes do livro barra funda em três tempos [paralaxe editora, 2014], organizado por marcelo aflalo, editado pelo michel e com fotos de lalo de almeida [desculpa lalo, vou colocar umas fotos minhas, umas que tirei nessas andanças pelo bairro e em outros momentos].


BARRA FUNDA, OUTROS TEMPOS

Até hoje não se sabe ao certo de onde veio o nome Barra Funda. Uns dizem que dos italianos, seus primeiros habitantes, que carinhosamente falavam que o lugar era uma ‘barafonda’, uma confusão, e muito provavelmente por sua própria presença. Outros dizem que veiodas curvas do Rio Tietê e dos portos de areia da região, pois uma barra funda facilitava a aproximação de barcos maiores. De uma forma ou de outra, Barra Funda nasceu e Barra Funda ficou.

Na segunda metade do século 19, a região era apenas um pedacinho das posses do Barão de Iguape (1778-1875) e lá se encontrava, por exemplo, a bucólica Chácara do Carvalho. Mas as construções das estações de trem da Estrada de Ferro Sorocabana (1875) e da São Paulo Railway (1892) mudaram toda a dinâmica da região. A Barra Funda virou então um movimentado entreposto, um importante meio do caminho entre o Porto de Santos e o interior do Estado, e era preciso muita mão de obra para movimentar essas novas engrenagens. Vieram então os italianos e, após a Abolição, os negros.

Em um tempo no qual as periferias eram próximas ao Centro, a Barra Funda rapidamente se transformou em um amontoado de vilas e cortiços que forneciam importante força de trabalho tanto para as ferrovias e indústrias quanto para as casas ricas no vizinho bairro dos Campos Elíseos. Não foi à toa que o primeiro bonde elétrico de São Paulo foi inaugurado em 7 de maio de 1900 ligando a Barra Funda, onde morava o então primeiro prefeito da cidade e neto do Barão de Iguape (Antônio da Silva Prado, 1840-1929), ao Largo São Bento.


Chaminé de fumaças passadas, 
escutam de perto 
os sons do Espaço das Américas

Com toda essa malha de transportes e distribuição, o desenvolvimento industrial do bairro ocorreu a passos largos a partir de 1900. Indústrias têxteis, químicas e metalúrgicas de pequeno, médio e grande porte, além de olarias e curtumes, começaram a se instalar na Várzea da Barra Funda, a parte do bairro entre as linhas de trem e o Rio Tietê. São dessa época no bairro a Cristaleria Paulista, a Fábrica de Vapor de Tecido e Fiação de Corda e de Barbante, a fábrica de papel Divani, a L. Queiróz (do lança-perfumes Pierrot) e a Bebidas Palhinha. Já na parte de cima da Barra Funda, entre o trem e os Campos Elíseos, concentrou-se a área residencial operária, além de pequenas oficinas (mecânicas, marcenarias, etc).

Boa parte das residências desse início da Barra Funda, bem como de outros bairros da cidade com predominância italiana, tinham como característica a “ponta de chuva”. Era um desenho básico para os pedreiros, dando ênfase à fachada, feito pelos capomastri (mestres de obras) com a ponta de seus guarda-chuvas na terra da construção. O restante das casas era ainda mais simples: entrada lateral, quarto enfileirados como um vagão de trem, porão e muita área de fundo, onde ficavam a cozinha e o banheiro.


A linha de trem atrás do muro, 
o pé do Viaduto Pacaembu, 
nenhum sinal do Largo do Banana

Barra Funda é que mora o samba

Um dos pontos mais importantes do bairro na primeira metade do século 20 foi o Largo da Banana, onde atualmente é o Viaduto Pacaembu e parte do Memorial da América Latina. O largo desapareceu sem deixar vestígio físico, mas o que aconteceu ali se ouve até hoje, pois é unanimidade entre historiadores que o Largo da Banana foi o berço do samba paulista. Em um triângulo de poucos metros quadrados, no qual milhares de cachos de banana e outras frutas eram vendidas e compradas diariamente, a comunidade negra do bairro se encontrava para batuques e improvisos em seus momentos de lazer, já que regularmente eram impedidos de participarem dos ranchos carnavalescos no Centro da cidade.

Foi então na Barra Funda que aconteceu a mistura urbana do samba rural vindo do interior do Estado de São Paulo (Pirapora do Bom Jesus) com o samba carioca que chegava via Porto de Santos. Tudo trazido e levado por trens e confluindo numa cidade que crescia rapidamente com a força econômica do café e da indústria.


Geraldo Filme (1928-1995) cantou essa história em diversas composições, como em “Samba da Barra Funda” - “Alô alô, gente bamba. Na Barra Funda é que mora o samba” -, lembrando de quando, ainda menino, acompanhava as rodas de samba e tiririca (capoeira) que os engraxates e carregadores improvisavam no Largo da Banana. Em “O Último Sambista”, Geraldo voltou a cantar o bairro, dessa vez com certo travo amargo de nostalgia: “Levo saudade lá do Largo da Banana / Onde nóis fazia samba / Todas noites da semana / Deixo esse samba / Que eu fiz com muito carinho / Levo no peito a saudade nas mãos o meu cavaquinho / Adeus Barra Funda”.

Esses agrupamentos festivos que aconteciam no Largo deram origem, em 1914, ao Grupo Carnavalesco Barra Funda. Seus integrantes saíam pelas ruas do bairro vestidos de camisas verdes e calças brancas e, como é de costume em manifestações realmente populares na rua, eram perseguidos pela polícia. Quando ocorriam essas repressões as festas eram transferidas para os quintais ou porões de teto baixo que, a princípio, foram feitos para guardar mantimentos, mas com o adensamento da população ganharam função domiciliar.

Na década de 1930, durante o ditatorial Estado Novo de Getúlio Vargas, os foliões foram sistematicamente “confundidos” com simpatizantes da Ação Integralista Brasileira, partido político do líder fascista Plínio Salgado, que usavam verde. A repressão foi tão dura que o grupo deixou de desfilar em 1936 e só voltou, com nome novo (Escola de Samba Camisa Verde e Branco), na década de 1950.

Em meados da década de 1950, com a cidade em franca expansão, surgiu a necessidade de ligar o bairro com a Zona Norte. Como existiam poucas passagens sobre a linha de trem foi construído o Viaduto Pacaembu, que acabou passando por cima (literalmente) do Largo da Banana. Desde então não existem mais vestígios do ainda pouco conhecido berço do samba paulista. Geraldo Filme também cantou esse triste e silencioso fim do Largo em “Vou Sambar Noutro Lugar”: “Fiquei sem o terreiro da escola / Já não posso mais sambar / Sambista sem o Largo da Banana / A Barra Funda vai parar / Surgiu um viaduto, é progresso / Eu não posso protestar / Adeus, berço do samba / Eu vou-me embora, vou sambar noutro lugar”.

Favela do Moinho

Felizmente algumas edificações históricas sobreviveram à sanha do progresso. Uma delas é o Theatro São Pedro, na esquina da Rua Barra Funda com a Rua Dr. Albuquerque Lins. Sua construção aconteceu por obra e graça do português Manuel Fernandes Lopes, homem de negócios que fez vida em São Paulo e decidiu retribuir com nada menos que um teatro (que hoje é o segundo mais velho da cidade ainda na ativa, perdendo apenas para o Theatro Municipal de 1911). O nome São Pedro veio do local de nascimento de seu benfeitor, Sarzedas de São Pedro, vilarejo próximo a Coimbra.

De estilo eclético, meio neoclássico e meio art nouveau, o teatro foi inaugurado em 20 de janeiro de 1917, e manteve durante muito tempo uma programação que ia desde sessões de cinema até operetas, passando por concertos, espetáculos de variedades e dança. A partir do final da década de 1960 passou por diversas fases de abandono e efervescência. No final da década de 1960, por exemplo, as atrizes Lélia Abramo e Beatriz Segall comandaram uma guinada para as artes cênicas e foram montadas peças de autores como Bertolt Brecht, Ariano Suassuna e Chico Buarque.

O tombamento pelo Patrimônio Histórico aconteceu em 1984, mas o Theatro São Pedro só voltou a abrir ao público definitivamente a partir de uma grande reforma em 1998 e desde então segue firme como uma das poucas edificações que lembra a fase áurea do bairro.

Outras edificações sobreviventes são o palacete da Chácara do Carvalho, situado na Alameda Barão de Limeira, e a Casa Mário de Andrade, na esquina da Rua Lopes Chaves com a Rua Margarida.

O palacete é um dos marcos iniciais do bairro, foi construído no final do século 19 e pertenceu a família do Barão de Iguape. A princípio era um lugar de criação de cavalos puro sangue, mas com a instalação das ferrovias o terreno valorizou e Antônio da Silva Prado, que foi o primeiro prefeito da cidade (1899-1911) e neto do Barão de Iguape, decidiu construir um palacete projetado pelo italiano Luigi Pucci.

Durante a década de 1920, o palacete foi palco de inúmeros convescotes da elite paulistana e chegou até a hospedar Alberto I, o então Rei da Bélgica, e sua corte em visita a cidade. Hoje a Chácara do Carvalho abriga o Instituto de Educação Boni Consilii.

Já a casa de Mário de Andrade não tem particularmente nada de especial (arquitetonicamente falando). É um sobrado geminado típico da classe média paulistana do início do século 20, mas desde que a família do escritor modernista se mudou para lá em 1918, apenas um ano depois de sua construção, a casa ganhou importância histórica.

Lá ficava sua gigantesca e diversa biblioteca, e móveis desenhados por ele. Era lá também que Mário de Andrade dava aulas de composição e, às quartas, recebia importantes intelectuais da época, incluindo amigos que participaram da Semana de Arte de Moderna de 1922.

Durante a década de 1930, quando foi diretor do Departamento Municipal de Cultura, idealizou neste sobrado uma série de atividades culturais acessíveis para a população, tais como bibliotecas circulantes, concertos e espetáculos a preços módicos. Em 1937, pouco antes de sair para um breve autoexílio no Rio de Janeiro, viajou até Pirapora do Bom Jesus. De volta à Rua Lopes Chaves escreveu “O Samba Rural Paulista”, texto seminal sobre as origens do gênero em terras bandeirantes.

Foi no sobrado, em 25 de fevereiro de 1945, que Mário de Andrade sofreu um ataque cardíaco fulminante. Em seu testamento dava dois fins possíveis para a casa: ou ficava com a família ou deveria ser transformada em centro cultural. A casa foi tombada em 1975 e abriga desde 1990 a Oficina da Palavra, uma instituição estadual dedicada a literatura.


Casa das Caldeiras, março de 2013

Outra edificação sobrevivente do glorioso passado industrial da Barra Funda fica no extremo oeste do bairro, quase Pompéia. A Casa das Caldeiras, que desde sua reforma no final da década de 1990 é um local para eventos e shows mantido pelo Estado, era parte das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que foi a seu tempo o maior complexo industrial da América Latina.

Tombado pelo Patrimônio Histórico em 1986, a Casa das Caldeiras é um espaço impressionante de alvenaria, pé direito altíssimo e três chaminés monumentais que levam às caldeiras que dão nome ao espaço. Sua construção começou na década de 1920 e o espaço foi ampliado em outros dois momentos (1936 e 1953) em um vasto terreno de mais de 100 mil m2. No complexo fabril do Conde Francesco Matarazzo (1854-1937) eram produzidos sabonetes, álcool, óleo vegetal, vela, sacarias, etc. Tudo devidamente escoado por uma linha de trem própria ligada à Estrada de Ferro Sorocabana.

Mas nem só de passado remoto vive o patrimônio histórico e cultural da Barra Funda, pois em 1989 o bairro ganhou o Memorial da América Latina. Idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), o Memorial foi construído em um grande terreno entre o Viaduto Pacaembu e o Terminal Intermodal da Barra Funda. Em um terreno de 84.482 m2, o complexo arquitetônico é formado pela Praça Cívica, o Parlamento Latino-Americano, a Galeria Marta Traba, a Sala de Atos, o Queijinho (Centro de Recepção de Turistas), o Pavilhão da Criatividade e o Auditório Simon Bolivar.

Até hoje, mais de duas décadas após sua inauguração, o Memorial da América Latina ainda sofre críticas. De um lado, pela completa aridez do espaço. Nada de árvores ou jardins, apenas o concreto, a ideia fixa de Niemeyer. Do outro, pela falta de diálogo com o entorno. Segundo os críticos é como se tivessem sido jogadas aleatoriamente umas construções naquele espaço e o entorno, e a cidade, que se vire para correr atrás.


Fugindo parada 
bem na ruazinha 
Chácara do Carvalho

Transformações barafondas

A partir do processo de desindustrialização que a cidade de São Paulo viveu a partir da década de 1960 – com a criação de parques industriais na região do ABC, por exemplo –, bairros como a Barra Funda sofreram sucessivas quedas demográficas. Grandes áreas, outrora fábricas e oficinas, permaneceram abandonadas durante muitos anos assombrando velhos moradores, assustando possíveis novos moradores. E o bairro foi se degradando, junto com outras partes próximas ao Centro de São Paulo, sem ninguém se dar conta de sua posição estratégica na cidade, de sua boa malha de transporte público e variedade de serviços. Nem mesmo as estações de metrô, construídas no final da década de 1970, e nem o Memorial da América Latina, do final da década de 1980, reverteram o processo. Afinal, o mais comum em São Paulo é o surgimento de iniciativas urbanas isoladas sem nenhuma preocupação com o entorno.

Segundo levantamento divulgado pelo IBGE, o distrito tinha em 2011 uma população de 14.481 pessoas moradoras, sendo que quase metade na faixa entre 30 e 59 anos. Em 1980, o número era 17.894. Por outro lado, esse mesmo censo de 2011 afirmou que a queda foi estancada e o número de habitantes permanece praticamente o mesmo desde o final dos anos 1990 (ao redor dos 14 mil), enquanto a população flutuante voltou a aumentar.

Uma das explicações para esse novo movimento na Barra Funda é que durante esse período recente, uma série de iniciativas (empresariais, de serviços, entretenimento, etc.) injetou novos dinamismos no bairro. É possível citar, entre outros, o Centro Empresarial Água Branca, os estúdios da TV Record, o 1º Tribunal do Júri da Cidade de São Paulo, o Espaço das Américas, além de bares, casas noturnas e faculdades.

Durante muitas décadas, a Barra Funda, como outros bairros de São Paulo, sofreu com a falta de planejamento urbanístico. Aos poucos, e por consequência dos limites que a cidade chegou, novas ideias precisam ser testadas, afinal o futuro da cidade depende de seu presente.

terça-feira, 11 de abril de 2017

zé ed, o release

o release que fiz pro disco da cantora héloa, no segundo semestre do ano passado, abriu caminho para uma nova safra de frilas-release e nessa toada nasceram outros três que publicarei aqui conforme os discos forem lançados. daí que o disco de estreia do zé ed já está por aí, tanto fisicamente quanto nas plataformas de streaming [spotify, deezer, google play, itunes, etc]. mais uma bela surpresa que me caiu no colo e nos ouvidos. disco doce, delicado mesmo, e lindamente cantado e arranjado.



ZÉ ED

Entre a dança e a doçura, entre a rua e o suor, entre o amor e o Sol, entre cangotes e encontros, assim caminha o canto de Zé Ed. Mais conhecido por ser uma das vozes do Tarado Ni Você, um dos blocos mais disputados do carnaval de rua paulistano, o cantor e compositor lança seu disco de estreia com aquela segurança louca de quem ama o que faz e com aquela alegria de quem tem muito a dizer. 

E Zé Ed diz muito em seu canto autoral, talvez porque tenha levado uma década para amarrar o conceito de sua estreia e reunir as composições [todas as 11 músicas do disco são dele ou em parceria]. 

Na faixa que abre o disco, “Transa”, o artista paulistano começa apoiado por um naipe de metais e logo estabelece um diálogo vibrante entre arte, dança e pessoas. Já na segunda música, a dedilhada “Do vento”, um tanto de melancolia toma conta de sua voz [ou doçura, ou uma união de ambas] e essa alternância entre climas permeia todo o disco. 

“Bonde da vida”, a única não inédita do disco [foi lançada como ‘single’ em 2015 e tem participação do grupo Batakerê], tem um quê de amores carnavalescos de ladeiras olindenses e é pop e tropicalista ao mesmo tempo. “Delírio” [part. Simone Julian e Clara Bastos ] e “Confesso” são canções tranquilas sobre o amor, suas idas e vindas, e sua permanência apesar dos solavancos da vida. Afinal de contas, “o que fica do amor é joia rara”.



E a vida segue complexa e cheia de voltas na faixa “Tudo em movimento” [part. Ricardo Herz], pois começa como balada para depois crescer epicamente no refrão. Vida muda todo tempo, não para, tem alegrias e tristezas e vice-versa. Daí que Zé Ed não aguenta ficar parado também, quer tudo sempre em movimento. Mas uma coisa não tem saída, do coração não se escapa, e “Condição do amor” [part. Tati Abdo e Paulo Neto] é outra canção de quem não quer [e nem pode] fugir dos sentimentos. 



“Pro futuro” [part. Irlana Maia] é uma festa para quem espera sempre mais e melhor do que vem pela frente. É aquela canção amiga que pega pelo braço e te leva pra dançar na rua. “Assunta” é um outro lado da festa, é aquele início lento de procuras e descobertas. E enquanto o disco vai chegando ao fim, Zé Ed ainda tem fôlego para sacar mais duas belezas: “Preciso ir” [part. Rubi], um xote sobre o desapego, e “Verão na cidade”, uma marchinha urbana sobre como ocupar afetivamente a rua com alegria, amor, loucura e esperança [no dicionário essa seria a melhor definição para “carnaval”].



Produzido por Luiz Gayotto, Estevan Sincovitz e Guilherme Kastrup, a estreia de Zé Ed é daqueles sopros bons que a música popular brasileira continua nos brindando ano após ano. É aquela voz tranquila e amiga que chega perto e diz que vai ficar tudo bem, vamos lá, vem comigo.

terça-feira, 14 de março de 2017

nos ajude a entender, lázaro

já entrevistei muitas gentes nesses meus 17 anos de jornalismo, mas tem umas que são especiais pelo simples fato de que gostam mesmo de conversar. lázaro ramos certamente está nesse grupo. dez anos atrás o entrevistei junto com selton mello pruma matéria na revista monet [ed. globo] sobre o canal brasil. o tempo passou, saí da monet, fiz uma pá de coisas e agora, de volta ao mundo dos frilas, retornei também a querida monet e a lázaro ramos. a deixa era falar sobre os 12 anos de seu programa no canal brasil, o 'espelho' [estreia dia 27, 21h30], mas a deliciosa conversa - infelizmente, por telefone - foi além como tem que ser. a matéria saiu na edição de março deste ano da revista e segue aqui na versão "do autor" [brincadeira, afinal o pessoal da monet não mexe nos textos como certas publicações por aí]. 



ESPELHO, ESPELHO NOSSO

Lázaro Ramos gosta de conversar sobre qualquer assunto, mas tem um que lhe é particularmente especial. “O Espelho é o assunto que mais gosto de falar. Se me deixarem, fico horas. Sou muito apaixonado pelo programa”, afirmou durante longa entrevista por telefone. Não é pra menos. O programa criado e comandado pelo ator, e exibido pelo Canal Brasil, está completando 12 temporadas neste ano e recentemente ganhou o selo de “programa semanal de entrevistas mais longevo em atividade na TV a cabo”. Lázaro não disfarça o orgulho deste feito, e nem quer.

“O Espelho é um programa construído sob o signo da leveza. A gente não tinha pretensão de durar tanto. Só queríamos ser verdadeiros ao tratar de assuntos relevantes de uma forma agradável. Porque a gente sempre quis falar com mais pessoas e não ficar dentro da bolha de quem pensa como a gente”, diz com a humildade de quem, no final de 2017, terá colocado no ar nada menos que 291 episódios.



Para se ter uma ideia, a primeira temporada, lá em 2006, teve apenas cinco episódios e eram uma extensão das discussões levantadas pelo espetáculo Cabaret da Raça do Bando de Teatro Olodum, grupo que o transformou em ator nos anos 1990. Parecia arriscado falar especificamente de questões negras, mas qual não foi a surpresa de Lázaro e sua equipe quando a primeira temporada do programa se tornou a segunda maior audiência do Canal Brasil [perdeu apenas para as impagáveis pornochanchadas]. 

O começo da história do Espelho foi assim, uma surpresa. E elas continuaram acontecendo ano após ano. “Nesse princípio, e sem denominar, a gente já estava falando sobre representatividade, empoderamento e sororidade... palavras que hoje em dia estão na moda e inclusive já são discutidos na TV aberta em programas matinais. Isso é uma coisa que a equipe do Espelho e o Canal Brasil devem se orgulhar muito, pois demos voz a uma parcela de brasileiros que não estavam sendo escutados”, e lembra ainda que o programa foi o primeiro da TV brasileira a falar de “bullying”.

Esse pioneirismo espontâneo, aliado a um jeito agregador de Lázaro Ramos, também trouxe outros “furos” ao programa, tais como entrevistas exclusivas com figuras que nunca falam com a imprensa, desde o juiz Joaquim Barbosa [parte 1 e parte 2] até o produtor Celso Athayde. “Com o passar do tempo vi que dava pra ampliar. Claro que queremos continuar discutindo as questões negras, mas a gente busca novas vozes, novos pontos de vista e também outros assuntos que não tenham a ver com raça. E aí o programa foi ganhando outras dinâmicas. Eu sumi um pouco mais, e isso é uma coisa que gosto muito de fazer, ser mais um mestre de cerimônias, mais uma pessoa que concede o microfone muito do que alguém que fica falando muito. Pessoas já me disseram que sou um entrevistador que escuta. Não tinha pensado nisso. Foi mais uma intuição, não um planejamento”.

O que era um espelho que o ator, apresentador, produtor, escritor e diretor colocava diante das questões negras no Brasil passou a ser, no decorrer das temporadas, um espelho diante do Brasil, ou de alguns Brasis, mas passando sempre pela vivência e o olhar negro. “Não acho que o Espelho me fez mais ativista não. Essa voz que tenho no programa é a mesma desde meus 12 anos, é a mesma que tinha no trabalho no grupo de teatro do Olodum. Acho que quando fiquei mais conhecido foi por trabalhos que não tratavam dessa temática, mas essa é a minha história, é a minha voz, é meio que admitir quem eu sou: negro, nordestino, pai de duas crianças negras. Não sei ser outra coisa. Agora, sou muito feliz que consigo exercer essa militância, esse modo de ser, com alegria. Não quero nem me violentar deixando de ser quem sou e nem criar uma máscara pra mostrar outra coisa pras pessoas. Aprendi isso dentro de casa, com meus pais Seu Ivan e Dona Célia”.


Lázaro e Taís em 'Mister Brau'

Assim Espelho foi crescendo, tomando corpo, e paralelo a esse processo, Lázaro Ramos teve sua voz cada vez mais ouvida e se fazendo ouvir: escreveu livros infantis, fez novelas, séries de TV e filmes, dirigiu web-série [Do Outro Lado de Lá], clipe [“Vai dar ruim”, Dream Team do Passinho] e teatro. Ao lado da mulher, a atriz Taís Araújo, protagonizou sucessos recentes como a série Mister Brau e a peça O Topo da Montanha. Mas o Espelho, ah, o Espelho...

“O programa sempre foi um lugar de propagar ideias e hoje em dia muita gente faz isso também, mas sem conteúdo ou repetindo frases feitas achadas na internet. Então sei da responsabilidade que a gente que faz comunicação tem e, por causa disso, nos últimos anos, tenho ficado mais nervoso antes de algumas entrevistas ou assuntos. É que às vezes você pode falar alguma coisa que desagrade uma parte do seu público, e isso pode gerar consequências. Mas isso, que na verdade é uma autopatrulha, não me tira a coragem não. Continuo fazendo as perguntas, mas sei que ‘hummm, isso vai dar merda!’”.

Pode ser até que dê, Lázaro. Mas só o fato de você ouvir já nos ajuda a entender.



RETROVISOR

Relembrando as centenas de episódios das 11 temporadas anteriores de Espelho, Lázaro Ramos respirou fundo e, a duras penas, escolheu 5 que tem um lugar mais próximo do coração. Mas não sem antes brincar: “Podem ser 10?”. Sem ter mais pra onde fugir, pinçou a cobertura que fez na raça e na coragem da posse de Barack Obama no início de 2009, as experimentações de formato no encontro com Tom Zé, o bate bola com um dos entrevistadores mais experientes do jornalismo brasileiro [o saudoso Geneton Moraes], os improvisos mágicos no encontro com a cantora espanhola Concha Buika e o mergulho íntimo no passado de Seu Jorge.

O QUE VEM POR AÍ

Em sua décima segunda temporada [a partir de 27 de março, às 21h30], o Espelho ganhou uma novidade. É que no dia da gravação, o artista aparecia na timeline de seus seguidores nas redes sociais anunciando a atração da vez e pedindo perguntas. “Em algumas ocasiões mudei o foco da entrevista para acrescentar inquietações do público. Serviu como um termômetro”, afirmou. Dos 26 episódios do ano destacou os encontros com o ator Jesuíta Barbosa, com José Mariano Beltrame [em sua primeira entrevista após ter deixado o cargo de Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro], com as cantoras Liniker e Tássia Reis, e com as jovens ativistas Monique Evelle [Desabafo Social] e Murilo Araújo [Muro Pequeno].

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

verão 2017, os hits

nunca vi um verão assim, tão quente, seco e cheio de hits. geralmente rola uma ou duas músicas de muito sucesso na temporada que antecede e incorpora o carnaval, mas este verão tem nada menos que quatro hits. o pontapé inicial foi dado ainda em dezembro com dois que se logo se transformaram em expressão popular [nada mais óbvio, afinal nasceram dela]. 

tudo começou com "deu onda" de mc g15. nascido gabriel paixão soares em duque de caxias, baixada fluminense, o garoto de 19 anos mudou-se em 2015 para são paulo. ele sabia que, por essas voltas que o mundo dá, são paulo tinha se tornado a capital do funk carioca desde sua mutação no final dos anos 2000, na baixada santista, em funk ostentação. o ostentação não aguentou o tranco da crise econômica e já não iria durar muito justamente por ser tão repetitivo em letras que não passavam de uma longa lista de marcas, e então o funk paulista se multiplicou em outros subgêneros. mc g15 foi atrás de um desses, o funk ousadia, que não passa da velha sacanagem brasileira, dos duplos sentidos com sexo e humor. daí que o sucesso de "deu onda" começou com sua versão explícita ["meu pau te ama"], mas foi a "família" que dominou tudo, um tanto também pela visibilidade que ganhou com o video dirigido por kondzilla, o midas dos clipes. e a música em si? pop até o último, de melodia facilmente identificável e letra cheia de expressões que grudam na cabeça. e ainda por cima ligeiramente nonsense e quase infantil. tudo coisa que dá onda.



igualmente nonsense e infantil - e também sacana, mas bem menos que "deu onda" -, a baianíssima "me libera, nega" é de ítalo gonçalves, 19 anos, mais conhecido como mc beijinho. samba reggae surgido do porta-malas de uma viatura policial [aqui tem um resumo desse início maravilhoso], a música é uma delícia do começo ao fim, principalmente pela curiosa divisão silábica de ítalo. é a silabagem, meu rei, uma das mais inquietas tradições do cancioneiro brasileiro [dá-lhe mário reis, joão gilberto, jorge veiga e tantos outros e outras].



já os outros dois hits do verão 2017, "todo dia" e "pau, perereca e cu", não são do tamanho das anteriores. são mais, digamos assim, de nicho [mas lembrando sempre que os nichos hoje em dia são mundos gigantes]. "todo dia", por exemplo, é do primeiro disco ['vai passar mal'] de pabblo vittar, cantora e drag queen maranhense radicada em são paulo. é pop eletrônico, e algo funk e brega, com refrão surpreendentemente político e festivo ao mesmo tempo ["eu não espero o carnaval chegar pra ser vadia / sou todo dia, sou todo dia"]. a cereja é a participação cantante do rapper rico dalasam.



e nada melhor que "pau, perereca e cu" pra fechar essa seleta de hits de verão né não. numa mistura louquíssima de suingueira, arrocha, funk e brega, o trio de brasília harmonia do sampler [mc caê maia, dj ops e o produtor cleber machado] transformou essas três palavras numa espécie de mantra do bundalelê. não dá pra ficar parado com tantos paus, pererecas e cus e essa é bem a ideia.



que loucura de verão é esse, minha gente?!

domingo, 11 de dezembro de 2016

50 + 50 discos brasileiros de 2016

já rolaram spoilers de alguns dos melhores discos brasileiros do ano na lista de músicas, então começo a falar desses destaques pessoais dentro da lista de 50 discos. trabalhos poderosos como o segundo do BaianaSystem [Duas Cidades] e o terceiro do Metá Metá [MM3], cheios de raivas e balanços, dubs e punks, música negra brasileira da maior qualidade. ou então os tropicalismos femininos de Céu [Tropix] e Iara Rennó [o duplo Arco e Flecha], docemente antropofágicas.  ou ainda a espiritualidade barroca e periférica do rapper Síntese [Trilha Para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem].

BaianaSystem e Metá Metá

mas talvez os discos mais completamente bonitos de 2016 sejam, infelizmente e/ou surpreendentemente, póstumos. Sabotage é uma sequência de porradas habilmente costuradas durante muitos anos pelo produtor Daniel Ganjaman [e seus parceiros do Instituto] sobre gravações inacabadas deixadas pelo rapper paulistano morto em 2003. é impressionante, quase assustador, a constante atualidade de Sabotage, suas letras, seu som e, acima de tudo, seu fraseado [flow]. o outro póstumo é Ascensão, de Serena Assumpção [a filha mais velha de Itamar morreu em março deste ano, aos 39 anos], um belíssimo “mapeamento” musical das divindades do candomblé.  nesses dois discos profundamente afrobrasileiros, muitos convidados – um belo punhado do melhor da atual música popular – homenageiam dois artistas que foram embora cedo demais.

Sabota e Serena #DEP

mais minas – entre estes 50 discos, outras mulheres deram suas caras. podem ser mais políticas como Aíla [Em Cada Verso Um Contra Ataque, disco bonito com produção de Lucas Santtana], Lay [199129], Ju Dorotea [Sincronia] e MC Carol [Bandida]. podem também ser mais afetivas como Dona Onete [Banzeiro], Héloa [Eu], Kika [Navegante], Luisa Maita [O Fio da Memória] e Mahmundi [Mahmundi]. ou podem ficar no meio desses caminhos como Tássia Reis [Outra Esfera]. todas muito no controle de suas vontades, sonoridades e falas.

mais manos – o rap já apareceu aqui com Sabotage, Síntese, Lay, Ju Dorotea, MC Carol e Tássia Reis, mas tem muito mais versos rimados entre os 50 melhores discos de 2016. tem a atualização do primeiro disco de Criolo [Ainda Há Tempo], o segundo solo de Dexter [Flor de Lôtus] e o primeiro solo de Mano Brown [e mesmo que Boogie Naipe seja um tanto quanto longo e irregular é também muito interessante por mostrar outras facetas do maior rapper brasileiro de todos os tempos]. tem ainda a juventude de Rico Dalasam [Orgunga], Jamés Ventura [Jahbless Ventura], Nego E [Oceano], Rael [Coisas do Meu Imaginário], Rashid [A Coragem da Luz], do coletivo D.D.H [Direto do Hospício] e de MC Guimê [Sou Filho da Lua].

cantautores – em tempos passados, a turma seguinte seria rotulada como mpb, mas sabemos que ‘mpb is no more’ [ou é limitada demais para descrever o que é feito nos últimos tempos, mesmo por veteranos]. tem samba sujo paulistano via Douglas Germano [Golpe de Vista], ópera rock caipira de Meno [Barriga de 7 Janta], as psicodelias folk de Tatá Aeroplano [Step Psicodélico] e Gustavo Galo [Sol], as digressões do mestre Tom Zé [Canções Eróticas de Ninar], a primeira experiência de intérprete do Romulo Fróes [Rei Vadio é sobre Nelson Cavaquinho], o rock pós-brega de Bruno Souto [Forte], os afoxés pops de Wado [Ivete], as pesquisas amazônico-caribenhas de Félix Robatto [Belemgue Banger], o indie solar de Beto Méjia [Kaningawa], a poesia paulistana de Felipe Antunes [Lâmina], os pontos de bossa de Álvaro Lancellotti [Canto de Marajó] e surpreendente estreia de Fióti [Gente Bonita] com um disco pop de sambas, balanço, djavaneios e reggae.

grupos, bandas e vice-versa – se BaianaSystem e Metá Metá encabeçam a lista com seus trabalhos coletivos, outras formações seguem mostrando que não vieram a passeio:  o trio O Terno ganhou metais em seu terceiro disco, Melhor Do Que Parece, e amadureceu sua mistura de vanguarda paulistana com Beach Boys; o brega caribenho da Academia da Berlinda [Nada Sem Ela] é diversão garantida para todas as estações; o carnaval paulistano de rua também é fortemente autoral com A Espetacular Charanga do França [O Último Carnaval de Nossas Vidas]; a Abayomy Afrobeat Orquestra cria novas pontes entre África e Brasil em Abra Sua Cabeça; e Saulo Duarte e A Unidade [Cine Ruptura, produção de Curumin] mergulha em desesperos e esperanças em disco cheio de misturas.

instrumentais – nessa grande lista tem espaço também pra longa tradição do instrumental brasileiro, tanto com o inquieto veterano João Donato [Donato Elétrico] quanto com o jovem estudioso Vitor Araújo [Levaguiã Terê], mas também no encontro de gerações/escolas de Paulo Santos [ex-Uakti] com a banda Hurtmold [Curado], na segunda aula de história e música da Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz [A Saga da Travessia] e no retorno grandioso de Arthur Verocai [No Voo do Urubu possui algumas faixas cantadas e que interessante que nelas participem, por exemplo, Mano Brown e Criolo].

p.s.: vale mencionar que Daniel Ganjaman segue como um dos melhores produtores da atualidade e desses 50 discos de 2016, 5 tem dedos dele [BaianaSystem, Sabotage, Síntese, Criolo e Rael].


sem mais, os 50 discos brasileiros de 2016 segundo o gosto da casa.

A Espetacular Charanga do França - O Último Carnaval de Nossas Vidas
Abayomy Afrobeat Orquestra - Abra Sua Cabeça
Academia da Berlinda - Nada Sem Ela
Álvaro Lancellotti - Canto de Marajó
Arthur Verocai - No Voo do Urubu
BaianaSystem - Duas Cidades
Beto Méjia - Wahyoob
Bruno Souto - Forte
Céu - Tropix
Criolo - Ainda Há Tempo
D.D.H. - Direto do Hospício EP
Dexter - Flor de Lótus
Dona Onete - Banzeiro
Douglas Germano - Golpe de Vista
Felipe Antunes - Lâmina
Felix Robatto - Belemgue Banguer
Fióti - Gente Bonita EP
Gustavo Galo - Sol
Héloa - Eu
Hurtmold & Paulo Santos - Curado
Iara Rennó - Arco & Flecha
Jamés Ventura - Jahbless Ventura
João Donato - Donato Elétrico
Ju Dorotea - Sincronia EP
Kika - Navegante
Lay - 129129 EP
Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz - A Saga da Travessia
Luisa Maita - O Fio da Memória
Mahmundi - Mahmundi
Mano Brown - Boogie Naipe
MC Carol - Bandida
MC Guimê - Sou Filho da Lua
Metá Metá - MM3
Nego E - Oceano
Rashid - A Coragem da Luz
Rico Dalasam - Orgunga
Romulo Fróes - Rei Vadio
Sabotage - Sabotage
Saulo Duarte e A Unidade - Cine Ruptura
Serena Assumpção - Ascensão
Tássia Reis - Outra Esfera
Tatá Aeroplano - Step Psicodélico
Vitor Araújo - Levaguiã Terê
Wado - Ivete

e seguem mais 50 discos muito relevantes deste 2016.

Anna Tréa - Clareia
Arielly Oliveira - Negra Soul
Brisa Flow - Newen
Carne Doce - Princesa
Chave Mestra - Coração no Gelo EP
Clínica Geral - Clínica Geral EP
Côro Mc - Vem Desse Naipe EP
Coutto Orchestra - Voga
Dante Ozzetti - Amazônia Órbita
DeFalla - Monstro
Don Pixote - Don Pixote
Edvaldo Santana - Só Vou Chegar Mais Tarde
Esdras Nogueira - Na Barriguda
Família de Rua - Ontem, Hoje e Sempre
Flow MC - Versátil
francisco, el hombre - Soltasbruxa
Guri Assis Brasil - Ressaca
Ijexá Funk Afrobeat - Ifá
Jonathan Tadeu - Queda Livre
Jonnata Doll & Os Garotos Solventes - Crocodilo
Juliana Perdigão - Ó
Juliano Gauche - Nas Estâncias de Dyzan
Laya - Laya
Lestics - Torto
Liniker e Os Caramelows - Remonta
Lucas Vasconcellos - Silenciosamente
Lulina - Na Moita
Lurdez da Luz & PParalelo - Bem Vinda EP
Matéria Prima - Pocas EP
Paula Cavalciuk - Morte  & Vida
Projeto Nave - Remix vols. 1 e 2
Romulo Fróes & Cesar Lacerda - O Meu Nome é Qualquer Um
Serge Erege - Scorpio
Strobo - Strobo 4
The Baggios - Brutown
Thiago Elniño - Filho de um Deus Que Dança EP